Opereta in C major

            Ao fundo um jazz soa melancólico. Na varanda sinto que não vale a pena mais. Ontem eu portando um tesão decidi que não quero mais te ver, não quero mais sentir você, decidi firme que a vida é muito mais que sofrer por quem deveria estar te fazendo bem. Hoje, na rádio, tocou uma música que me lembra você, eu ri dessa afronta da vida, mas estando eu já decidida apenas ri triste e não volto atrás. Decidi que não vale a inspiração.
           Eu ainda te amo, mas prefiro rir sozinha de um amor frouxo que nunca existiu. Ainda prefiro chorar sozinha um amor que nunca me magoou até porque nem sabia que existia. E até há pouco tempo nem eu tinha essa noção. Decidi hoje, por tanto, que te amo, mas não vale a pena manter vivo algo que nunca nasceu.

Sinfonia nº. 6

Medo calado
Sufoco
Não consigo falar
Você não aguentaria a confissão
Medo justificado
Não entendo essa justiça

Talvez ela nem exista

Quero contar
Quero que saiba

Vai precisar adivinhar

Desculpa
Desculpa a mim, pra mim, por mim
Suspeita
Shh
Não me esqueça
Não me machuque

Vai doer

Eu sei
Preciso respirar
Contar até mil

Divaguei

Me tenha dó
Vem comigo
Por favor
A gente se cuida

Se cuide.

 

Fractal

        Hoje me peguei vendo as tuas fotos antigas, aqueles álbuns que você insistiu em deixar em casa criando pó, aquelas fotos dos teus tempos que não voltam. E, depois de tudo, ainda me ouço falando “puta que pariu, esses olhos ainda me encantam” e, suspirei com teus sorrisos, abracei as fotos e acabei dormindo. Acordo em prantos porque sei que você não está aqui. Soluço minha dor pra fora do corpo, mas ainda está tudo aqui dentro. Só tenho as fotos e as lembranças e meu coração que não pulsa além de visões em êxtase.

Místico

Pensar em amor é algo que automaticamente traz você aos meus pensamentos. Teus gestos, teu carinho, teus medos, tuas angústias, teus sonhos e pesadelos, teus cabelos, teus olhos, tuas mãos, tuas voz musical melodiosamente doce. Você. Por inteiro. Queria evitar esse tipo de conclusão, mas fica cada vez mais difícil negar essa obviedade cáustica. E não consigo mais evitar afirmar pra mim mesma o que sinto, não consigo mais fugir, nem deixar secar num canto isolado até morrer. Não. Assumo pra mim. Dizem ser o primeiro passo, mas ainda vai continuar guardado, até minha garganta explodir e eu gritar pro mundo.

Antes do Café

       Dizem que é impossível acordar feliz, mas sei que dizem isso apenas porque não dormem da forma correta e, é fácil dormir errado. Eu durmo errado por muitas noites. Mas a facilidade vem, por exemplo, em ter como última imagem, antes de fechar os olhos e se entregar ao deus dos sonhos, o teu sorriso bobo depois de uma piada mal contada, ou se deparar com você saído do banho e com os cabelos ainda pingando pela casa e você feliz por ter ido tomar banho. E dormir sabendo que você está perto e receber um “boa noite” dado meio sonolento meio não querendo ser vencido pelo sono. E, ainda, dormir sabendo que você estará lá de manhã quando acordar… é assim que é possível acordar feliz, acordar sorrindo e dar “bom dia” antes de tomar café.

Os Olhos de Morfeu

        Não queria que fosse assim, mas é inevitável sentir esse arrepio inebriante quando você me toca, meu corpo vibra em sincronia à uma música que toca apenas em mim, em sístole e diástole numa taquicardia punk-blues. Você me olha, nossos olhos se encontram e me perco na imensidão universal que tuas constelações me mostram e eu bem que poderia me manter ativa por eras pra falar de cada uma das tuas estrelas.