Cenário

Passou a semana desenvolvendo o projeto para o jantar de aniversário de casamento deles, escondeu os potes e os presentes no armário de cobertores aproveitando que era verão. Dia 15 estava próximo e ela mal podia esperar que o marido chegasse do trabalho neste dia. Deixou tudo pré-pronto, ela já conhecia o roteiro dele, ele chegaria em casa, daria um beijo saudoso nela, que estaria sentada no sofá assistindo uma série só para disfarçar e, antes de ele ir para o banho ela entregaria um dos presentes, uma caixinha pequena apenas para mostrar a ele que lembrou da data, haveria um beijo longo, agradecimentos e ele deixaria a caixa na cama para pegar as roupas de ficar em casa à noite e iria tomar banho, ele geralmente demora 35 minutos, ou aproximadamente 7 ou 8 músicas que ele deixa tocando no iPod.

Durante a manhã do dia 15, eles tomam café da manhã à mesa da cozinha, como fazem em quase todas às terças-feiras, eles terminam o café e retiram a mesa, enquanto ele lava a louça ela reveza a organização do espaço entre um beijo na nuca e um item no armário, ele se diverte com a situação e reclama brincando que se continuar assim ele chegará atrasado, então resolvendo a situação ela se encaixa entre ele e a pia e o abraça eliminando os afazeres da louça. Ele se despede, um beijo e “bom trabalho, amor”, então ela o observa enquanto ele anda pelo corredor e sorri antevendo o dia que terá. Porta fechada, ele só volta à noite.

É verão, então a liberdade de comidas frias está em jogo para a surpresa funcionar melhor. Hora da lista do mercado, de entrada pão fresquinho para fazer crostini, figos, queijos (ainda não decidiu qual, vai deixar a intuição apontar no mercado), azeite tem em casa, balsâmico já foi feito durante a semana. Simples. Castanhas? Pistache. O prato principal foi custoso de tempo, o que seria bom de fazer? Salada? Não, muito casual. Depois de meia hora debruçada sobre o laptop procurando receitas ela optou por um risoto correndo o risco de não finalizar a tempo, mas acrescentou à lista queijo brie, pera e um chardonnay (ou dois), o arroz tem em casa. QUEIJO DE CABRA, diz ela socando a mesa de madeira. ISSO. Queijo de cabra para a entrada. E para a sobremesa panna cotta, então baunilha e cerejas vão para a lista. Ela recosta na cadeira deliciando-se com a leitura daquele papel. Na cozinha procura as forminhas que precisa e já lava antes de ir às compras. Troca de roupa, pega a bolsa, as chaves do carro e sai. Duas horas e quarenta e sete minutos depois está de volta em casa e, ajeitando as sacolas na mesa da cozinha começa a calcular o tempo de preparo de tudo. Ela sorri com a certeza que dará tudo certo.

A cozinha permanece fechada, assim como a sala de jantar, no script que fez ela estaria no sofá quando ele chegasse, preferiu estar na cozinha falando que deu um surto de limpeza e que está lavando o chão (ela já havia feito isso durante a tarde), mas ele chega dez minutos mais cedo, e é impedido de entrar na cozinha para o beijo de boas vindas e se contenta com um leve bisbilhotar, mas ela sai do cômodo usado para enxotar o marido e entregar o presente para ele, conforme os planos. Ela diz que é só uma lembrancinha. Ele sorri e pergunta a ela por que está com toalha na cabeça se estava lavando a cozinha, visto que ela poderia tomar banho depois de suar no batente, ela está roxa de vergonha e se atrapalha para dizer que tomou banho antes de ficar inspirada e começar a faxina. Ele ri, beija sua testa e abre o presente, era um vale-spa para o casal aproveitar nas férias. Ele a beija de leve e agradece sorrindo. “Vou tomar banho, amor, vai pensando no que quer jantar e pedimos ou saímos”. “Ok, acho que já tenho uma ideia”. Finalmente. Ele não foi na sala fechada para xeretar, mas ela agradece por ter pensado em arrumar mais cedo. Corre preparar o risoto, tudo já estava encaminhado. O arroz cozinhando e ela indo da cozinha para a sala decorando a mesa e ajustando a posição das velas, as taças, o vinho mergulhado no balde de gelo, arrumando a toalha vermelha (que achou cliché, mas combinava com o ritual), os talheres sem aquela etiqueta toda, mas com uma básica desenvoltura. Novamente à cozinha para preparar a apresentação do prato principal sem por o risoto, que ainda está cozinhando. Desenforma a panna cotta, põe para gelar já no prato e cozinha a geleia de cereja.

Como o programado, ela termina por vestir o vestido preto que ele havia dado no último natal e que ainda não usara, acende as velas dispostas na mesa, tudo em ordem, liga o iPod, que ele esqueceu de levar para o banho, ouve-se os noturnos de Chopin num volume sutil nas caixas e espera a batida da porta do quarto, então descalça vai avisar a ele que já decidiu aonde quer ir, mas que precisa buscar os sapatos, sabendo que ele a seguiria depois de tomar os segundos de ar que perdeu quando a olhou naquele vestido. Então o encaminha à sala onde está o jantar. Ele para olhando a montagem da sala e a abraça, tem seus dedos entrelaçados aos dela e é conduzido à cadeira. “Vinho, monsieur?”.

Jardim Sulfúrico

Os pássaros cantam, as flores ainda colorem as calçadas e gramas por ora verdes, o sol se põe, mas o céu se mostra cinza. O dia esteve aberto, o sol se fez presente, mas o céu se posta nublado, um nublado sem nuvens, um nublado quase apocalíptico. Um sol que se põe vermelho, doente, cansado. O céu virá cinzas, o sol queima sangrando estações sem limites. Clima pra parques e máscaras de gás. O céu está um nublado sem nuvens. Cinza, fogo e estéril.

O tempo fechou, está cansado, está descontando. Ontem, várias pedras de gelo bombardearam a cidade. Hoje está pensativo, uma hora chove, às três os pássaros cantam celebrando nuvens se abrindo e dando espaço ao sol pra secar o concreto. A chuva de ontem ardia na pele, nem água parecia ser. Talvez nem fosse.

Estoque

Acordei e você já não estava mais aqui, mas geralmente você não fica. Não deixou bilhete nem nada, só aquele mesmo vazio de sempre. Bati uma enquanto ainda estava na cama e fui tomar banho me sentindo a pessoa mais suja do mundo. Teu shampoo não estava no box, até pensei em comprar um quando fosse ao mercado, afinal eu precisava sair de casa algum dia. Saí enrolada numa toalha velha e esfarrapada e na cozinha meu café da manhã foi um maço de free mentolado que você havia esquecido. Aquele gosto de morte permaneceu na minha boca até eu achar a última garrafa estocada na despensa, Free e uma pinga barata. O único sinal de liberdade que tenho há décadas. Sei que você só volta quando quer alguma coisa e sai deixando minha pele azul e fria, mas sinto falta de uma presença e da certeza que não sou invisível.

Média Tarde

Ai de mim que sofro pela carne trêmula e quente de um vazio amargo palpitativo ao peito e engolidor de entranhas. Ai de mim que observo o cerco causado e concreto do vento que alumia as incertezas de uma forma mais lúdica. Ai de mim que calo sob angústias. Ai de mim que sangro cortes profundos anunciados na sede de saliva doce. Ai de mim que em noites sombrias me perco em leituras e vales escondidos. Ai de mim.

Exercício Cínico

Fui criada nas artes da encenação, então vamos brincar um pouco. Esse exercício consiste em:
Ser feliz

Seja feliz, é isso. Traga ao seu dia palavras positivas, atitudes altruístas, coloque a mão na consciência para ver se vale a pena a treta, evite fazer comentários que possam afetar a energia do local onde está, principalmente se estiver onde mais da metade (senão todas) das pessoas estão extremamente estressadas, depressivas, em pânico, angustiadas, ansiosas e tantas outras coisas que não são vistas por quem não está interagindo pois estão ocupadas demais pensando em como afetar diretamente a vida das pessoas que estão extremamente estressadas, depressivas, em pânico, angustiadas, ansiosas; porque essas vidas são caras demais para que não causem preocupações.

Então rebata negatividade com positividade e assim você descobre o segredo da vida eterna e da felicidade extrema. Porque nada é mais eficiente do que funcionar bem. Não, espera aí. Funcionar bem, não. Isso é uma falha. Seja medíocre e assim lhe darão crédito. Aceite o que vier, já que te fazem um favor em manter você ligado, com um circuito sem panes e, se houver pane no sistema é só reconfigurar.

Desgosto

O que sou senão um amontoado de carne apodrecendo, um pouco de sangue ralo e gordura pra manter a temperatura? Nada de especial. Nem bonita, nem inteligente, muito menos alguém que valha tempo. Não sei conviver com pessoas, não gosto que me toquem, não sou de falar muito, fico irritada com muita facilidade, tenho pânico de lugares barulhentos e com muitas pessoas. Aparentemente não me dou bem nos estudos, apesar de ter um tesão descontrolado por leitura, minha vida amorosa é um caco, um erro, uma falha e parece que nunca isso irá mudar. Minha vida social já dispensei faz tempo. Tenho poucos amigos. Tenho medo dos vinte segundos de coragem insana. Não sou de arriscar. Não tenho nada a oferecer. Desculpa. Crio expectativas, tanto pra mim mesma, quanto pros meus amigos que ainda acham que sou alguma coisa bacana. Desculpa. Sou uma fraude, isso que vocês vêem quando olham pra mim é só minha máscara, eu me conheço, não sou nada senão esse amontoado de desgostos.

Cenário Vespertino

ATO I

(Deitada numa rede, um gato ronronando em meu peito enquanto observo as água do mar no seu completo direito de ir e vir, batendo contra rochas e fazendo espuma. O gato modela seu pãozinho no meu colo e descansa tranquilo ao som das ondas trazendo conchas à areia. Meu coco com água é o elixir do meu dia, o sol no alto nos engana com uma tarde quente de verão, mas as nuvens que se foram revelam uma primavera tardia.)

Fractal

        Hoje me peguei vendo as tuas fotos antigas, aqueles álbuns que você insistiu em deixar em casa criando pó, aquelas fotos dos teus tempos que não voltam. E, depois de tudo, ainda me ouço falando “puta que pariu, esses olhos ainda me encantam” e, suspirei com teus sorrisos, abracei as fotos e acabei dormindo. Acordo em prantos porque sei que você não está aqui. Soluço minha dor pra fora do corpo, mas ainda está tudo aqui dentro. Só tenho as fotos e as lembranças e meu coração que não pulsa além de visões em êxtase.

Nômade

        Meu bem, por que és tão cego? Não consegue ver-me de forma alguma. Estou aqui, aguardando um sinal, um aceno, uma vontade, um momento. Por que não me vês? Estou de fronte a ti, há tanto tempo que nem sei mais contar. Meu bem, por que és tão cego? Também anseias por um amor, também desejas um aceno, toma o meu, entrego a ti por inteiro. Meu bem, peço que mire minhas suplicas, essa alma errante queima por ti, dá-me um sinal que retiro-me ou jogo-me mais fundo.