Quarentena ano 2, dia X-tp7. Curitiba

Estamos no segundo ano de pandemia, quase completando dois anos de pandemia. Tem variantes novas muito mais transmissíveis vindo e obviamente o super vetor do Brasil não fechou o país, de novo, para que viajantes infectados chegassem aquí tranquilos pronto pra festas e um diagnóstico positivo de covid…

Precisei contar o saldo desse pandemônio. Além de todos os problemas de saúde, desesperos, vontade de não existir… Produzi minha arte, incluir a primeira publicada com meu namorado, aprendi a cozinhar, voltei pra dança, voltei pra yoga, tenho um grupo muito mais fortalecido, aprendi a bordar e sei que quero ficar um bom tempo sem precisar usar fones de ouvido durante as férias que se os deuses permitirem virá logo.

Então quando a Simone perguntar o que eu fiz… Eu fiz coisa pra caralho esse ano. Mal acredito que já estamos nos últimos dias de novembro, ontem ainda era 2019, não tive tempo nem de me recuperar de 2020 e acho que nunca me recuperarei. Vem 2022! Vem #forabolsonaro

Balanço

Percebo o quão difícil é expor amarras sociais sobre a nossa família. Estou há um mês tentando escrever uma carta sobre o sentimento e a vivência de ter estado presa por trinta anos em uma e não está saindo nada publicável. Hoje essas poucas linhas trarão, talvez, uma luz para o desenvolvimento de um texto maior, mais denso, melhor… Hoje deixo só a sombra de um desejo. Hoje me despeço acreditando que será melhor.

Dia 66, quarentena. Curitiba

Eu escrevo nos meus extremos, hoje é um desses dias, estou vazia e lascas de terra soltam do chão com o resvalo dos meus pés na borda do abismo. Olho, chamo, eco. Ventania tenta me desequilibrar e poderia ser um ajuda ao passo seguinte, quero fechar os olhos e seguir, mas tem alguém me segurando, algo talvez… Algo sádico que quer me ver um pouco mais nessa dúvida do pular ou sentar um passo atrás. Hoje estou sangrando e dói muito, estive sentada por parte do dia, quando levantei fui encarada novamente pelo abismo fundo, respirando tão fundo até arder os pulmões ainda minhas pernas bambeiam da adrenalina do simples pensamento de o que me aguarda lá. Já são mais de dois meses isolada esperando o isolamento começar. Estou caminhando para o beleléu, mas pelo menos tenho o luxo de poder ir pra lá.

Dia 60, quarentena. Curitiba

Não temos um dia sequer de paz nesse caralho. É agonizante saber que tem um genocida na presidência do país. É agonizante saber que ele não vai sair de lá tão cedo, pelo menos não até ter certeza que vai entrar um pior. Os ministros que foram escolhidos a dedo para destruir o país estão cavalgando de cabelos soltos cumprindo esse dever sádico. Todos os dias somos bombardeados com notícias sobre as novidades da destruição, porque não basta a pandemia de um vírus letal e desconhecido, precisamos também de um ajudante pra ele. Poucos trouxas estamos fazendo distanciamento físico, usando máscaras e ficando em casa lavando compras que ainda podemos pagar, os outros estão por aí comprando roupas em lojas ainda abertas, indo ao salão porque o cabelo não pode sofrer desidratação e ter umas pontas secas e as barbas precisar ser aparadas; ah, e músculos precisam se manter ativos em maquinarios suados porque fazem parte da lista de afazeres essenciais em uma crise de pandemia, porque a economia, a SANTA ECONOMIA, não pode parar. Os que ainda se mantém reféns em casa ficam, no mínimo, frustrados por seguirem as recomendações e não poder agredir quem defendo o excrementissimo. Parece que temos que aceitar calados a barbárie, porque não adiantou fazer as passeatas em 2019, não adianta protocolar pedido de impeachment, não adianta expor toda a merda que está acontecendo, não adianta ele mesmo escancarar toda a sujeira dele, da família e da corja que ele chamou pra trabalharem juntos, ele mesmo parece estar implorando pra tirarem ele de lá à machadadas, mas nada disso está adiantando… Como proceder? O que podemos nos permitir sentir nesses momentos? Estamos fechando 60 dias de isolamento pseudo-voluntário, mas tem os que ainda não abrem mão do cafezinho na padaria.

Dia 59, quarentena. Curitiba

Parece que a palavra “esperança” perdeu o sentido ultimamente. Até podemos nos referir a ela, mas o significado fica solto, fica à deriva nesse oceano turbulento. O final do dia é uma ressaca. Eventualmente você acaba dormindo na praia e se a maré sobe você pode acabar sendo levado pela água, mas novamente há a esperança, aquela de que não suba e você possa ficar na areia sonhando enquanto dorme sob um céu estrelado. Sinto dizer, mas a maré vai subir e vai descer eventualmente, e talvez você tenha achado um espaço na areia fofa para ficar seguro ou talvez não, a orla fica perigosa mesmo. Você também pode ir pro calçadão sentar e olhar as ondas quebrando e aguardar amanhecer para ver o sol nascer, respirar a brisa da maresia e recarregar os pulmões para mais um dia incerto ou apenas dormir seguro e torcer para que, quando acordar, tudo isso tenha passado ou pelo menos que não seja mais um pesadelo.

Dia 54, quarentena. Curitiba

Estou me sentindo uma inútil. Nesses últimos dia eles voltaram, não quero eles aqui comigo de novo. Estive me sentindo vazia, não consigo me concentrar para ler (escrita está acontecendo por puro desespero), estou engordando (o que não seria problema se eu conseguisse ficar saudável, mas não estou), minha pressão fica baixa com mais frequência e eles continuam aqui. Preciso de parque, preciso respirar sem ficar preocupada sem máscara, quero sair pra caminhar, ir pra faculdade, ficar a tarde toda na biblioteca pública e levar pra casa a mochila abarrotada de livros e ficar com dor nas costas, quero a minha cama, meu cobertor, meus moletons (fui pega de surpresa vindo pra casa do namorado pensando que só iria ficar um final de semana, estou quase completando dois meses e não quero ficar indo e vindo e criar uma zona de risco pra minha mãe ou pra ele), quero voltar a comer pizza e sushi fora de casa e em casa sem medo. Pode parecer radical, mas estou paranoica o suficiente pra aprender o máximo de receitas possíveis pra nunca mais precisar pedir nada por aplicativo ou de lugares que não conheça o procedimento de manipulação. Preciso trocar meus óculos, mas meu oftalmologista não está atendendo por motivos óbvios, então minha vista está cansando mais rápido e com isso fico com dor de cabeça e sonolenta, meu dia é perdido.

Ontem foi dia das mães, liguei pra minha porque não estou com ela; o que está sendo muito bom, pra ambas, de alguma forma, acho, e ela me solta um “deus está demorando um pouco pra resolver isso porque algumas pessoas precisam desse tempo pra avaliar a vida delas” e eu não sei se concordo. Fui criada no cristianismo, católica apostólica romana, fui forçada a fazer catequese, eucaristia, crisma e constantemente pressionada a seguir um matrimônio no qual o conceito é um homem passar a posse da mulher pra outro homem (pois bem, meu pai já é falecido e quero que esse conceito vá pra casa do caralho), seguindo isso eu só respondi pra ela “bom, que ele se resolva logo com a humanidade porque tem gente morrendo por irresponsabilidade de governo. E é muita inocência pensar que todas as pessoas que sobreviverem repensarão a vida delas porque foram acometidas por uma pandemia”, logo me arrependi porque ela ainda vê esse suposto deus genocida (biblicamente falando, não é o primeiro extermínio dele) como salvador, mas não estou aqui para julgar a fé dela, se isso a está mantendo viva é o que basta. Mas se é pra repensar a vida, esse deus podia ser mais seletivo e matar só imbecis que votam a favor da violência, aqueles que ajudam a destruir o meio ambiente liberando agrotóxicos e queimando florestas e matas, aqueles que não se importam com a vida do outro (seja índio, negro, latino, asiático), aqueles que só querem poder e mais e mais dinheiro, aqueles que nunca ajudaram ninguém e que querem proibir outros de ajudar. Seja mais seletivo, assim as pessoas podem começar a pensar duas vezes se vão prejudicar o outro. Dizem que é onipotente, onipresente e onisciente, então compactua com toda essa merda ou no mínimo não é poderoso o suficiente ou é apenas um sádico genocida.

Quase dois meses em isolamento, sem poder ver meus amigos, engordando e me sentindo uma merda. Se todos tivessem começado o isolamento juntos não estaríamos mais assim, não teríamos batido recordes de mortes por Covid, já estaríamos pensando em reabrir comércio, não estaríamos com mais de 11 mil mortos (só os confirmados do brasil) e já teríamos organizado as quermesse junina. Mas não, tem os príncipes e princesas que precisam tomar a porra do café deles na cafeteria badalada da cidade, os que vão pra praia bronzear o corpo santo deles, os alecrins que tão fazendo festa no ap toda semana, também os que abrem baladas clandestinas pra ralarem a bunda no chão. Se tivéssemos parado em março, a bunda sedenta de vocês não estariam passando vergonha de sair em jornais como os criminosos irresponsáveis que são. Negacionismo é cruel e espero que não percebam isso só quando um nome que vocês conhecem aparecerem no obituário, porque lá já tem muitos nomes que outras pessoas conhecem.

#ForaBolsonaro #morteaocapital #bolsonaristanãoégente

Dia 43, quarentena. Curitiba

            Fiz trinta anos há pouco mais de dois meses. Teoricamente, estou no meu segundo ano da minha segunda graduação. Final do ano passado estava pesquisando mestrado para tentar seleção. Estava com projeto de escrita de três artigos para submeter e caçando iniciação científica na universidade… Pois muito que bem vem o covid-19, acende uma fogueira e joga meus planos e sonhos pra alimentar a chama.

Estamos tentando manter o contato com o curso e a faculdade, mas ‘tá osso, viu… Meus professores que querem manter funcionando estão passando pelos bocados de um ensino remoto que comigo não funciona, sinto-me pressionada a trabalhar num momento onde não deveria estar pensando nisso, sei que serei cobrada a posteriori e, não sabendo se vou continuar ou não cursando essa graduação, nem se ela continuará existindo numa universidade pública, nem se terá incentivos à pesquisa (além de ter um criacionista na presidência da CAPES, hoje o CNPq cortou o PIBIC das ciências humanas). Não temos um dia de paz nesse caralho desde as eleições de 2018. Eu estava querendo manter um diário de bordo da quarentena, mas queria fazer mais ligado na ficção… só que a realidade está tão surreal que a ficção não faria sentido: então seguimos dessa forma confusa, desconexa e desesperada;
Novamente, fiz trinta anos há pouco e a sensação de morte iminente está me assombrando o dia todo, mais que deveria. Estou constantemente a ponto de explodir no choro, então vou pra cozinha; cozinhar está me acalmando (às vezes me irrita, ainda mais depois de fazer a porra da higienização das compras). Aprendi receitas novas, entendi porque minha mãe odeia fazer alguns pratos, percebi que receita é bom pra base porque o toque fica por nossa conta mesmo, descobri que ouvir Belchior é quem me ajuda a fazer os melhores pratos sem importar o meu humor porque ouvir “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro” me dá certo alento, já passei por situações esquisitas, mas uma pandemia complica um pouco meu otimismo, então ter uma puxada pro lado do “vamos ficar bem, estamos juntos mesmo que separados” ajuda.

Gostaria de dizer para todos os meus amigos que vamos passar juntos por isso, fiquem em casa, usem máscara se forem sair, saiam apenas se for extremamente necessário, respeitem e protejam a vida dos outros, apoiem produtores locais, fogo nos racistas, morte ao patriarcado, FORCA PROS FASCISTAS E FORA BOLSONARO.

Invisibilidade

Esse é um poder que queremos quando somos criança e que alguns até conseguem quando viram adultos, mas não é aquele poderzão que lemos nos quadrinhos quando sonhamos em ativar o botão certo. Quando crescemos, a invisibilidade, é diferente, ela vem no trabalho com a falta de cumprimento e respeito de clientes pra você – claro, isso se você for proletariado -, ou do patrão que finge demência quando você está doente ou pede um aumento, mas só aumenta o trabalho porque o salário ainda é risível. Vem também das pessoas que esbarram em você na calçada porque não conseguem fazer sinapses suficientes pra desviar 5cm pro lado e evitar, porque você já não pode fazer pois anda perto da parede ou pro lado da rua movimentada ou até tenha um canteiro do teu lado. As pessoas são imbecis mesmo, até você, pois acredite você não é o floquinho de neve especial que acha que é e, você continua sendo invisível até pra você mesmo. Não ganha sorteios, não nasceu com “a bunda virada pra lua” como dizia minha vó quando alguém tinha sorte, teus amigos esquecem compromissos que marcaram contigo, claro eles têm a vida deles também, os problemas deles, mas você também tem, né? O botão quebra e chegam as contas e as cobranças por erros cometidos, te xingam, te humilham, te demitem, te cobram presença, te forçam a viver feliz e a por a porra de um sorriso na cara, te cobram estudo, te cobram bom comportamento, te cobram namoro com um cara decente (mulher, caso você já seja um cara, porque é inadmissível gostar de alguém de gênero similar e nem vou entrar mais fundo em todas as letras), te cobram casamento, se casam, ele te bate e não é daquele tipo de fetiche BDSM que é muito mais discutido no teu círculo que violência de gênero, não pode separar você prometeu até a morte os separar, espere mais um pouco que deus vem te fazer cumprir essa promessa, mas aguenta mais um pouco e renove as desculpas pras marcas no corpo e põe o sorriso na porra da tua cara, te cobram filhos agora que casou. Imediatamente! Ah esses sagrados, não aborte mesmo você não podendo ter agora, é crime, não aborte, abrir as pernas foi bom, agora aguente, tenha o filho, não tenha depressão pós parto, aguente feliz, destrua teu corpo, perca sua identidade, perca tua vida pra um parasita, tenha um filho e nunca mais veja teus próximos preocupados com você, só com a tua cria, te cobrarão cobrir os seios, te cobrarão educação da cria, te cobrarão ser mãe (ou pai) mesmo ninguém sabendo o que isso realmente signifique. Te cobram até o uso certo de pronomes oblíquos, imagina a vida certa que deveria ter? E mesmo assim continue invisível.

Desenho Concerto

Meu corpo está agitado. Ele lateja e palpita, a mente acompanha essa viagem de símbolos. É normal agora sim, mas não para o meu. O teu toque me arrepiou e ainda penso nessa reação refletida há dias e gravada em memória afetiva.

É sobre flores mortas atentas ao mundo, sobre chá e música, livros, história. Uma boa noite e um passo a mais que não me permiti. A primeira vez. Meu estômago aperta nessa ansiedade de saber que talvez não te veja mais.

Voo longe pensando em nosso beijo e talvez ele nem tenha existido, já não sei mais, apesar de confessar querer essa realidade, pois meus lábios formigam com a sensação dos teus os tocando.