Dança com vampiro

Segue o compasso de uma valsa bem feita, dois pares de pernas, dois pares de braços enrolados no corpo um do outro, o vestido dela balançado pelos movimentos quentes e ritmados, o terno dele alinhado ao corpo musculoso. O cravo caiu do bolso dele, ela, jeitosa, se abaixa e o toma em seus dedos finos, aquela mão alongada é usada pra pôr o cravo no lugar de onde não era para ter saído e passa sua mão pelo peito dele, ele afaga as costas dela e desenha sua cintura com aquelas mãos fortes. Os dedos compridos e de espessura perfeita para ele; aquele homem distribuído em 1m 88 cm de altura, 85 kg idealmente pesados e trazendo uma leveza incrível enquanto dança, tranquilamente  sustenta o corpo dela, 1m72cm e 54 kg elegantemente posto naquele vestido vermelho sangue que reluzia perante a luz baixa do recinto.

Pés firmes, passos rápidos, giros, perna no ar mostrando a pele descoberta de tecido, ele passa sua mão na perna dela, voltam ao 1º momento, se olham, ela vislumbra um par de olhos castanho-claro, lembra mel, ela fica com vontade de provar… em uma piscadela, ela encosta os lábios na pálpebra dele, não era assim que ela imaginava a prova, mas  sentiu um arrepio que subia desde a lombar. Ele sorriu, tão gostosamente e permaneceu com os olhos fechados, esperava mais alguma surpresa, talvez. Não foi dessa vez. A música acaba, ele segura as mãos dela e as beija demoradamente, olha nos olhos da moça. Ele se afasta e pisca, ela entendeu, sentiu entre os dedos um pedaço de papel – quando ele pegou o papel? – pensa e, abre, lê. Era uma letra bem desenhada com tinta vermelha:

“Tem uma praça, linda, ao atravessar a ponte! Caso queira me conhecer melhor encontro-te lá em meia hora. R.”

Ela sente um calafrio subindo pela espinha, mas vai ao toalete retocar a maquiagem e ajeitar seu cabelo. Consulta o relógio que indica que são quase onze horas dessa noite morna, sai da casa de baile e olha para o céu; um céu sem nuvens, com muitas estrelas, a lua no quarto crescente, aquele ar perfumado de flores campestres plantadas cuidadosamente no jardim da casa, de dia percebe-se flores de todas as cores, agora fica um pouco confuso diferenciar apesar da luz da varanda. Segue o caminho até a ponte, sente a grama sob seus pés, confortável até começar a trilha de pedregulhos que indica estar próxima à ponte. Chegando nela, enquanto a atravessa, os passos fazem a madeira da ponte ranger de velhice prematura de tantas carroças e charretes passarem por ela. Verônica, apoiada no corrimão de tronco de árvore, observa o riacho abaixo e ouve a água batendo nas pedras e seguindo seu fluxo. Ela continua seu caminho afim de encontrar o misterioso senhor galante que provocou demasiada curiosidade. Seguindo sua intuição, caminhando até a praça a moça nem sequer pensa nas consequências, apenas quer rever seu companheiro de baile, chegando ao local marcado ela avista um corpo iluminado por uma luz fraca, mas sabe que é aquele quem ela procura e lá está ele, o “R” misterioso que concedeu à ela aquela dança, ele está olhando as montanhas, na direção oposta à moça, apoiado com uma perna no chão e a outra em cima do banco de madeira da praça, dois postes com lampiões iluminam as silhuetas das personas envolvidas, ele está fumando um cigarro.

Ela aproxima-se dele tentando não fazer barulho, o cigarro, já no fim, é encostado no banco para apagar e em seguida jogado no chão de paralelepípedos, ele respira como se puxando ar para falar e finalmente diz:

– Sabia que viria –. Vira lentamente e olha pra ela.

Ele sorria majestosamente

– Minha curiosidade é maior que meu senso de segurança – diz a moça sem pensar direito, mas ele estava sorrindo e sorriso dele a encantava então sentiu-se segura.

– O baile não estava tão bom, é esplêndida a sua presença aqui.

– Você tinha certeza que eu viria, mas parece que ficou surpreso.

– Fiquei surpreso com a sua resposta –. Ambos riem

– Então, o nobre cavalheiro me dirá seu nome ou me manterá curiosa com isso também?

– Rodrigo -, diz isso pegando a mão da moça – meu nome é Rodrigo, encantadora Verônica –  e beijando seus dedos.

– Como sabe meu nome se eu não lhe informei isso?

– Dedução e, percebo que acertei, minha outra opção era Vanessa, mas a gentil dama tem mais jeito de Verônica – diz isso amavelmente.

– Então – um pouco chocada -, o que acha que me despertou tanta curiosidade a ponto de vir aqui me encontrar contigo?

Ambos sentam no banco, lado a lado, então Rodrigo olha para ela, pega suas mãos, abraça-as nas dele e diz:

– Apenas me atrai por você e queria um tempo a sós contigo e te fiz ter certeza disso, a festa já não me oferecia nada de interessante e a dança foi maravilhosa.

Verônica sente-se satisfeita e deixa que ele chegue mais perto dela, ele se move, graciosamente, para ficar mais aconchegante e ainda de mãos dadas param de falar, ela sente o beijo dele antes mesmo de ele acontecer, veio aquela sensação de que não tem nada dentro dela e um ar gélido passa pelo vazio e como ela previra, eles se beijaram, aquele beijo macio, doce, quente e deixando Verônica ébria. Ele morde o lábio dela e o corta sem querer, ambos se assustam, mas não ligam, continuam brincando e ela faz o mesmo com ele. Agora cada um já experimentou a vida um do outro, eles deitam no banco, ele acima dela, acariciando seus cabelos e, com os dedos, limpando o sangue do corte na boca dela. Verônica sem precisar das mãos para se apoiar apenas percorre seus dedos pelas costas fortes de Rodrigo e passa sua língua no machucado da boca dele. Ele beija vorazmente o pescoço de Verônica, abrindo o corte novamente, ele a lambe para limpar o sangue; os dois param, se olham e acenam a cabeça como que em um acordo, ele levanta acende um cigarro e espera Verônica se arrumar.

De mãos dadas ele a conduz pelo caminho e acariciam os dedos um do outro durante o percurso, atravessam a ponte rumo ao casarão onde a festa, ainda, está acontecendo. Eles não são nada discretos e passam pelo meio do salão principal, onde estão servindo a champanhe e os convidados ainda dançam uma música de melodia triste. Eles sobem um lance de escadas e ele sentindo a pergunta dela já se apressa confirmando:

– Sim, a casa é minha – sorri meio impaciente.

Ela se sente descuidada, mas ainda o segue, um corredor imenso à frente e ele indica que entrarão pela terceira porta à direita, assim que entram ela vê uma cama muito maior do que a que ele precisaria. Ambos desnudam os pés e, encantada com a vista que a janela permite, Verônica se distrai e ele a abraça por trás, afasta o cabelo dela das costas e beija sua nuca, uma das mãos segurando os cabelos e a outra em seu seio; ele beija suas costas. Ela já está arrepiada e ele a vira de frente e beija os lábios, desce para o pescoço, ombros, passa os lábios pelo braço dela e acaba mordendo um de seus dedos, mas dessa vez sem cortar, foi sutil. Verônica tira o paletó de Rodrigo, seguido da gravata, colete, camisa; tira numa leveza que parece uma dança, cada peça sendo jogada no chão cai como pedaços de nuvens. Quando ela pensava em tirar a calça dele, ele a vira e abrindo, suavemente, seu vestido beija-lhe as costas, o tecido escorrega por seu corpo e ele começa a desmanchar os laços de seu espartilho, então Rodrigo o tira sutilmente abaixando até que a peça esteja no chão, juntamente com a calcinha dela, assim, ele volta subindo beijando as pernas de Verônica e sobe beijando a coxa; desenha o quadril dela com sua língua e segurando suas costas passa os lábios pela pele da barriga dela, quando chega aos seios, detém-se ali por uns momentos e novamente volta ao pescoço dela. Ele permite que ela termine de tirar as peças dele e se beijando vão até a cama, ela deitou e ele começou aquele ritual de ir passando seus lábios por cada pedacinho nu do corpo dela, usava as mãos, língua, o corpo todo…

Continuaram assim até amanhecer, quando o sol explodiu na janela do quarto eles brincaram com os dedos um do outro, as línguas levemente se encostaram e adormeceram.

Adeus meus sonhos

Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!

Misérrimo! votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto…
E minh’alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.

Que me resta, meu Deus?!… morra comigo
A estrela de meus cândidos amores,
Já que não levo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!

Não, esse não é meu… esse poema é de Álvares de Azevedo, poeta Ultra-Romântico, que me serviu e serve de inspiração, aqui só uma lembrança de uma obra dele, intraduzível para o que eu sinto por seu trabalho, meu poeta da morte e do amor puro, meu mancebo macilento! O século XIX teve o seu maior poeta <3

bem, publico esta lembrança dia 09/06/2012, mas fui apresentada a ele em 2006 (apesar de haver uma conexão muito mais forte e antiga) e, ele fez/faz parte da minha passagem pelas sombras de amores infrutíferos e machucados sob seios palpitantes e pele amarelecida!

http://www.youtube.com/watch?v=XWCUBRbPDes

Empedernido

E nesta noite quente, o carrasco se aproxima, ela sentada naquela cela improvisada, ouve os passos dele vindos em sua direção, pés pesados que batem na calçada de terra, levantando poeira e movendo os pedregulhos. Ele traz consigo umas correntes de ferro e pelo barulho que fazem ao serem arrastadas pelo chão ela sente que são pesadas e que a machucarão.

Ele veste peças com um toque cruel: uma touca preta brilhosa – suponho que seja de couro – que cobre seus cabelos e vai até a altura de um possível bigode, com duas aberturas para os olhos – dois globos grandes de íris verde-amendoadas – e duas para as narinas. É encorpado, pelo colete sem mangas e aberto no peito vê-se que trabalha arduamente para mostrar-se atlético. As calças, com um ‘quê’ de perversidade com o próprio corpo é justa, ela perde o ar admirando os músculos de suas coxas rijas e um coturno completa aquele visual inumano dele, um coturno preto, já bastante gasto, mas que parece dar sustentação àquele corpo masculino.

Um vermelho sanguíneo subia por seu pescoço desnudo e ela via a jugular dele pulsando, pronta para ser aberta e tirada toda a sua virilidade. Era aquele homem que viera buscá-la, ele a pegou pelos cabelos e, ela fraca, não se alimentava bem há dias, tentou segurá-lo pelo pulso para, assim, evitar mais dor no couro cabeludo, é lógico que não funcionou. Ele via que ela queria gritar de dor, mas não conseguia e isso o deixava mais saliente e mais feroz. Ele continuou arrastando a pobre moça pela calçada de terra, a cada passo ela se esfolava nas pedras e se cortava e parecia não se preocupar mais, parecia nem sentir ou até parecia estar gostando.

Ela não conseguia gritar, nem de dor, nem de prazer –sabe-se lá o que ela sentia –, isso o irritou profundamente e assim, tentava com mais veemência. Parecia que ela estava começando a gostar, curvava os lábios numa perversidade diabólica de pura luxúria, a dor já não a afetava como todos esperavam, sim, ela estava sendo arrastada em praça pública… o pecado dela? Ninguém se importava; o que queriam era vê-la sofrer, ser humilhada, mas “que pecou, pecou”, diziam. Ele parou, se livrou daquelas correntes, assim também com a moça, as jogara no chão e foi para cima dela, já abrindo sua calça e levando o vestido dela até a cintura. Começou a apertar os seios dela com muita força, arrancou seu corpete e a mordia vorazmente. Ele deu um tapa no rosto dela, uma lágrima fugiu dos olhos dela e a fez beijá-lo, no tempo de respiro veio mais um tapa, um tapa forte que a fez desmaiar.

Assim que acordou; em uma cama coberta de manchas numa mistura de sangue, saliva, suor e gozo! Ela sentia dores pelo corpo todo, sua sensibilidade havia voltado? Ela não conseguia levantar daquela cama, mal conseguia se mexer. Ficou deitada esperando alguma coisa acontecer, alguém aparecer; enfim o carrasco volta com as correntes em punho novamente, trança uma espécie de nó ferroso nos pulsos, pescoço e pés da moça e a arrasta para fora daquela cabana fétida, lá fora algo que ela não havia visto antes, se era o mesmo lugar, uma forca preparada e, ela sabia que era por causa de seu vício, aquele que não importava. Ela chorou, pois imaginou que o carrasco não foi tão carrasco, apenas lhe ofereceu uma última experiência extrema, algo intenso demais para ele mesmo entender.

Já lá em cima, no seu último suspiro ela murmurou algo como “ele foi doce”.

03/06/2012 – madrugada

Inspirada por cenas do filme “Contos Proibidos do Marquês de Sade” (Quills, 2000), de Philip Kaufman

http://www.youtube.com/watch?v=u–PYnIYewE