Dia 20, quarentena. Curitiba

Faz 20 dias que estou em isolamento por conta de um vírus que está se espalhando descontroladamente (ainda mais no brasil com o sistema de governo que temos e em curitiba, essa cidadezinha reaça do caralho que não pode ouvir um “A” do excrementíssimo que já tá lá dando beijo grego nele). O mundo todo está sofrendo com isso, mas alguns países estão sabendo lidar melhor com a pandemia.

A minha ideia original era ficar uma semana na casa do namorado e logo voltar pra minha, mas a coisa foi piorando, bombeiros estavam fazendo ronda com megafone “os cidadãos devem permanecer em casa, cuidem dos seus familiares”, até a PM começou a fazer isso, mas da PM desconfio, os bombeiros ficaram uma semana saindo pelo centro com os carros e megafones. Agora pararam. Eles pararam, a cidade não. Ainda tem lojas grandes abertas, supermercados que não estão cuidando dos funcionários e clientes, afinal é só uma “gripezinha”, não, não é!

Tem uma construção aqui na esquina do prédio e só param no final de semana, então é o dia inteiro martelo batendo, serra ligada, madeira caindo… barulho.o.dia.todo! Final de semana que pensamos que ia fazer silêncio tem o alarme de segurança que toca sem razão alguma o.dia.todo! Sábado e domingo! Desliga, aproveitamos os dois minutos de silêncio e volta a tocar. 156. Não adianta, ou adianta tanto quando tomar sopa de garfo sem poder virar o caldo como se fosse uma canecona.

Tem muitos carros, ônibus e pedestres nas ruas ainda, grupos andando próximos, se tocando, se beijando, rindo como se fosse um dia normal. Semana passada fomos ao mercado, lotado. Pelo menos na entrada ofereceram álcool gel. Lá dentro pessoas muito perto umas das outras, tossindo sem cobrir a boca. O mercado estava abastecido e ninguém, nesse dia, estava comprando estoque de papel higiênico. Nesse dia chegando em casa fui higienizar os produtos e ele foi tomar banho. Eu chorei. Foi desespero puro (e um pouco de dor nos braços por conta das sacolas, vá lá), mas chorei por pensar que eu poderia ter me contaminado, por estar assintomática, tentando lembrar se alguém encostou em mim, se eu cocei meu rosto, se tossi. Racionalmente eu sabia que estava tudo ok, fiz tudo certo e que se eu começasse a tossir seria psicossomático, mas a paranoia continuou e fiquei repetindo pra mim “nunca mais eu saio de casa durante a quarentena”, eu até prefiro ficar em casa, pelo menos o desespero não bate tão forte. Aqui tem uma biblioteca imensa que posso usufruir o dia todo se me couber tempo, tenho os textos infinitos que meus professores passaram no início do ano letivo (fora as tentativas de “aulas online” que ainda tentam passar), estou fazendo uns cursos desde fevereiro para complementar a nova graduação em que me meti ano passado, estou cozinhando como nunca na vida, até me descobri boa nisso e inclusive tem dias que só me acalmo na cozinha já que não estou conseguindo produzir os atividades propostas nas “aulas online”, muito menos os artigos que eu estava querendo submeter esse ano…

Perdi uma cabeça de brócolis ontem e fiquei muito triste, queria ter me programado pra fazer algo com ele antes ou pelo menos congelado o coitado. Aliás, talvez eu faça algo sobre a produção gastronômica desse isolamento, já me pediram receita de parte dos produtos, mas isso fica pra depois, torcendo (ou não) que haja um depois. Engraçado isso de “esperança”, eu nunca fui dessas que se apega à vida pra não largar mais e ser A Sobrevivente em um apocalipse zumbi, por exemplo, mas acho que fica muito mais pesado pro lado da certeza de que todos iriam morrer mesmo, no caso atual não quero fazer parte da estatística dos “5 ou 7 mil que vão morrer pra economia não parar” sabendo que tem esses, cujas fortunas não são taxadas, que vão pra iates com estoque de comida pra alguns meses e que vão se livrar da “morte rubra (ah, meu querido Edgar)”.

Cenário

Passou a semana desenvolvendo o projeto para o jantar de aniversário de casamento deles, escondeu os potes e os presentes no armário de cobertores aproveitando que era verão. Dia 15 estava próximo e ela mal podia esperar que o marido chegasse do trabalho neste dia. Deixou tudo pré-pronto, ela já conhecia o roteiro dele, ele chegaria em casa, daria um beijo saudoso nela, que estaria sentada no sofá assistindo uma série só para disfarçar e, antes de ele ir para o banho ela entregaria um dos presentes, uma caixinha pequena apenas para mostrar a ele que lembrou da data, haveria um beijo longo, agradecimentos e ele deixaria a caixa na cama para pegar as roupas de ficar em casa à noite e iria tomar banho, ele geralmente demora 35 minutos, ou aproximadamente 7 ou 8 músicas que ele deixa tocando no iPod.

Durante a manhã do dia 15, eles tomam café da manhã à mesa da cozinha, como fazem em quase todas às terças-feiras, eles terminam o café e retiram a mesa, enquanto ele lava a louça ela reveza a organização do espaço entre um beijo na nuca e um item no armário, ele se diverte com a situação e reclama brincando que se continuar assim ele chegará atrasado, então resolvendo a situação ela se encaixa entre ele e a pia e o abraça eliminando os afazeres da louça. Ele se despede, um beijo e “bom trabalho, amor”, então ela o observa enquanto ele anda pelo corredor e sorri antevendo o dia que terá. Porta fechada, ele só volta à noite.

É verão, então a liberdade de comidas frias está em jogo para a surpresa funcionar melhor. Hora da lista do mercado, de entrada pão fresquinho para fazer crostini, figos, queijos (ainda não decidiu qual, vai deixar a intuição apontar no mercado), azeite tem em casa, balsâmico já foi feito durante a semana. Simples. Castanhas? Pistache. O prato principal foi custoso de tempo, o que seria bom de fazer? Salada? Não, muito casual. Depois de meia hora debruçada sobre o laptop procurando receitas ela optou por um risoto correndo o risco de não finalizar a tempo, mas acrescentou à lista queijo brie, pera e um chardonnay (ou dois), o arroz tem em casa. QUEIJO DE CABRA, diz ela socando a mesa de madeira. ISSO. Queijo de cabra para a entrada. E para a sobremesa panna cotta, então baunilha e cerejas vão para a lista. Ela recosta na cadeira deliciando-se com a leitura daquele papel. Na cozinha procura as forminhas que precisa e já lava antes de ir às compras. Troca de roupa, pega a bolsa, as chaves do carro e sai. Duas horas e quarenta e sete minutos depois está de volta em casa e, ajeitando as sacolas na mesa da cozinha começa a calcular o tempo de preparo de tudo. Ela sorri com a certeza que dará tudo certo.

A cozinha permanece fechada, assim como a sala de jantar, no script que fez ela estaria no sofá quando ele chegasse, preferiu estar na cozinha falando que deu um surto de limpeza e que está lavando o chão (ela já havia feito isso durante a tarde), mas ele chega dez minutos mais cedo, e é impedido de entrar na cozinha para o beijo de boas vindas e se contenta com um leve bisbilhotar, mas ela sai do cômodo usado para enxotar o marido e entregar o presente para ele, conforme os planos. Ela diz que é só uma lembrancinha. Ele sorri e pergunta a ela por que está com toalha na cabeça se estava lavando a cozinha, visto que ela poderia tomar banho depois de suar no batente, ela está roxa de vergonha e se atrapalha para dizer que tomou banho antes de ficar inspirada e começar a faxina. Ele ri, beija sua testa e abre o presente, era um vale-spa para o casal aproveitar nas férias. Ele a beija de leve e agradece sorrindo. “Vou tomar banho, amor, vai pensando no que quer jantar e pedimos ou saímos”. “Ok, acho que já tenho uma ideia”. Finalmente. Ele não foi na sala fechada para xeretar, mas ela agradece por ter pensado em arrumar mais cedo. Corre preparar o risoto, tudo já estava encaminhado. O arroz cozinhando e ela indo da cozinha para a sala decorando a mesa e ajustando a posição das velas, as taças, o vinho mergulhado no balde de gelo, arrumando a toalha vermelha (que achou cliché, mas combinava com o ritual), os talheres sem aquela etiqueta toda, mas com uma básica desenvoltura. Novamente à cozinha para preparar a apresentação do prato principal sem por o risoto, que ainda está cozinhando. Desenforma a panna cotta, põe para gelar já no prato e cozinha a geleia de cereja.

Como o programado, ela termina por vestir o vestido preto que ele havia dado no último natal e que ainda não usara, acende as velas dispostas na mesa, tudo em ordem, liga o iPod, que ele esqueceu de levar para o banho, ouve-se os noturnos de Chopin num volume sutil nas caixas e espera a batida da porta do quarto, então descalça vai avisar a ele que já decidiu aonde quer ir, mas que precisa buscar os sapatos, sabendo que ele a seguiria depois de tomar os segundos de ar que perdeu quando a olhou naquele vestido. Então o encaminha à sala onde está o jantar. Ele para olhando a montagem da sala e a abraça, tem seus dedos entrelaçados aos dela e é conduzido à cadeira. “Vinho, monsieur?”.

Estoque

Acordei e você já não estava mais aqui, mas geralmente você não fica. Não deixou bilhete nem nada, só aquele mesmo vazio de sempre. Bati uma enquanto ainda estava na cama e fui tomar banho me sentindo a pessoa mais suja do mundo. Teu shampoo não estava no box, até pensei em comprar um quando fosse ao mercado, afinal eu precisava sair de casa algum dia. Saí enrolada numa toalha velha e esfarrapada e na cozinha meu café da manhã foi um maço de free mentolado que você havia esquecido. Aquele gosto de morte permaneceu na minha boca até eu achar a última garrafa estocada na despensa, Free e uma pinga barata. O único sinal de liberdade que tenho há décadas. Sei que você só volta quando quer alguma coisa e sai deixando minha pele azul e fria, mas sinto falta de uma presença e da certeza que não sou invisível.

Exercício Cínico

Fui criada nas artes da encenação, então vamos brincar um pouco. Esse exercício consiste em:
Ser feliz

Seja feliz, é isso. Traga ao seu dia palavras positivas, atitudes altruístas, coloque a mão na consciência para ver se vale a pena a treta, evite fazer comentários que possam afetar a energia do local onde está, principalmente se estiver onde mais da metade (senão todas) das pessoas estão extremamente estressadas, depressivas, em pânico, angustiadas, ansiosas e tantas outras coisas que não são vistas por quem não está interagindo pois estão ocupadas demais pensando em como afetar diretamente a vida das pessoas que estão extremamente estressadas, depressivas, em pânico, angustiadas, ansiosas; porque essas vidas são caras demais para que não causem preocupações.

Então rebata negatividade com positividade e assim você descobre o segredo da vida eterna e da felicidade extrema. Porque nada é mais eficiente do que funcionar bem. Não, espera aí. Funcionar bem, não. Isso é uma falha. Seja medíocre e assim lhe darão crédito. Aceite o que vier, já que te fazem um favor em manter você ligado, com um circuito sem panes e, se houver pane no sistema é só reconfigurar.

Manifesto Afuturista

Não consigo achar uma visão de futuro. O hoje podia encerrar com tudo isso e seria um alívio. O futuro não está em nossas mãos. Está em mãos de gente imbecil.

Diziam que o futuro a nós pertencia e olha onde fomos parar, na incerteza da existência de um.

Ser pessimista agora não é caso pra tratar com otimismo, é só ser realista. Meu futuro é incerto e o hoje podia encerrar com tudo.

Perícia

      Hoje eu morri. Foi assim, sem prévia, sem aviso, sem nada pra me avisar que seria meu último dia, não pude aproveitar pra falar algumas coisas que estavam presas na minha garganta há anos e que eu não consegui falar por medo. Foi hoje meu último suspiro, meu último piscar de olhos, minha última saída com amigos. Graças a deus eu estava com vocês, vocês me deram colo quando a bala me atingiu, tingiram suas roupas e pele com o meu rubor líquido, nem quero imaginar a cara que eu tava quando vocês fecharam meus olhos vidrados, devia estar hilária, ou não… Agora não consigo ver vocês, sentir vocês, rir com vocês, mas queria ter falado que amo vocês, de todo o meu coração figurado. Vocês foram incríveis e, ainda são e serão, vão marcar vidas, vão ter sucesso, vão ser amados, mais amados que já são. Queria ter falado isso antes de morrer. Tarde demais agora, mas espero que meus sinais tenham alcançado a todos. Aquela calçada molhada de chuva e com esparadrapo amarelo marca que estive ali há poucos minutos. Espero que minha presença em vocês dure mais.

Ritual

       Depois de finalizar mais um dia no trabalho, passo no mercado pra comprar alguns mimos pra mim. Vou pra casa, descarrego as compras, ligo a torneira pra encher a banheira e escolhos meus sais azuis pra essa noite. No toca-discos coloco Dire Straits pra rodar. Sirvo-me de uma taça de vinho branco, acendo umas velas; sim, um momento bem filme cliché, ando merecendo ser cliché ultimamente. Entro na banheira e fico alguns minutos contemplando a água com bolhas de sabão… percebo que esqueci meu livro, mas tudo bem, hoje vamos focar em outras coisas: eu.

     Minha pele já está suficientemente enrugada e isso me força a sair da água de um quase morno ruim. A toalha nova é tão felpuda e macia que me dá vontade de morar nela. Enrolada, saio pelo corredor dançando ao som de Telegraph Road, mais uma taça de vinho me ajuda a preparar uma massa e um molho, especiais pra mim. A mesa é posta, vela acesa no centro, prato, talheres, taça. Sem esquecer de desligar modem e celular. Nem a cebola cortada me faz chorar, hoje é um bom dia. Na sacola dos mimos procuro um sachê pra mimar meu mimo preferido. O gato da casa, alegria da minha vida. Estava dormindo, o safado não acordou nem pra me dar boa noite, mas foi só ouvir o barulho sagrado que veio desfilando e se enroscando pelas minhas pernas e miando alto exigindo a recompensa por ter ficado o dia todo sozinho. Então eu e meu gato jantamos juntos e em seguida vamos pra sala assistir algum filme até dormir.

    Minha manta está quentinha, aparentemente ele a adotou durante o dia. Meu pijama já está alinhado ao meu corpo e enrolada na manta só espero começar o primeiro filme que está na sugestão e ele vem no meu colo pedindo cafuné, impossível negar e assim passamos a noite.

Nômade

        Meu bem, por que és tão cego? Não consegue ver-me de forma alguma. Estou aqui, aguardando um sinal, um aceno, uma vontade, um momento. Por que não me vês? Estou de fronte a ti, há tanto tempo que nem sei mais contar. Meu bem, por que és tão cego? Também anseias por um amor, também desejas um aceno, toma o meu, entrego a ti por inteiro. Meu bem, peço que mire minhas suplicas, essa alma errante queima por ti, dá-me um sinal que retiro-me ou jogo-me mais fundo.

Restos Mortais

Meu café da manhã de hoje foi um copo de whisky vagabundo e cinco cigarros, mas comi uma maçã pra limpar a garganta. Pronto para sair pro trabalho, aquele inferno pessoal onde ganho pra trabalhar, mal consigo pagar meu aluguel. Estou enforcado, mas ainda agonizando, a corda não apertou o suficiente para matar de vez, o balde já levou o chute, mas eu só me debato.

Minha esposa agora é ex-esposa, não tenho filhos, nem casa própria, não tenho diploma, nem nada. Esse whisky que tomei hoje comprei num posto de beira de estrada, acho que paguei dez conto nele, os cigarros vieram junto, acho que a moça ficou com pena.

Não sei mais o que faço. Acabei de chegar no lugar que preciso chamar de casa, meu banho não pude tomar, cortaram minha luz e água, estou sem pagar há uns três meses. Talvez eu sente no sofá da sala, abrace a garrafa e beba até entrar em coma alcoólica, mas sei que o mais provável será uma ressaca do caralho.

Bistrô

            Um jantar maravilhoso, regado a syrah e agradável prosa. Ainda estou alta, mas lembro perfeitamente bem de algumas coisas, assim como umas conversas e afins. Exemplo perfeito: numa conversa, nossas mãos sobre a mesa e ao aproximarem-se, eu pego minha taça com água e beberico, tocam-se e meu peito palpita. Tentei distrair-me consciente do ato e nossos dedos dançam, ao som de um pop francês tocado ao fundo no ambiente, uns com os outros e nossas mãos, tímidas, fundem-se entrelaçadas. Repouso o copo e te olho, você me sorri pois já estava a me observar; teu sorriso terno e tão gentil, um pouco tristonho no fundo, mas ao me dar conta já estou te sorrindo em retribuição, derretida em vontade de falar alguma besteira e envergonhada por alguma razão. Sem graça ambos baixamos os olhos e de canto de boca surge um riso muito mais tímido. Dedos ainda brincam juntos.

        Garçom nos tira da agonia daquela intimidade e por uma ótima causa, nossa sobremesa chegara, um crème brûllè que está, aparentemente, muito saboroso. As mãos repousam sobre colos enquanto o doce nos é apresentado e servido. Rapidamente te olhei, mas não trocamos olhares dessa vez, você parecia muito concentrado no doce – ou concentrando forças pra não falar ou fazer nenhuma besteira. Acredito nisso pois eu estava concentrada, não queria estragar a noite com nenhuma piada infeliz, portanto falei menos que o normal, apesar de nossos assuntos serem extremamente excitantes pra arriscar ficar monossilábica.

         Queria um espelho pra me analisar tanto quanto fiz contigo, mas apenas posso repassar as minhas sensações aqui. Meus olhos quase não precisando de lentes por conta do brilho intenso que eu sentia emanar, com certeza eu devia estar sorrindo de corpo inteiro. Por favor, tenha percebido isso.

        Passou rápido demais o tempo, já estávamos pagando a conta e ao sair do bistrô você segurou minha mão e eu entrei em choque, senti uma leve pressão e uma descarga elétrica percorrer meu corpo. Arrepio. Sorriso. Olhos fechados. Você me sorri de novo e eu enrubesço, você por sua vez, no mais alto grau de amabilidade e cuidado comigo me abraça e me pede desculpas por ter-me rido. E não teve problema. Quero saber o que está acontecendo. Não quero soltar esse abraço, mas preciso. Então você segura meu queixo pra que eu te olhe e encosta o nariz no meu. Sorrindo com lábios e olhos você me beija a testa e caminhando até em casa aproveitamos a maresia à beira-mar e as estrelas no céu noturno guiarem nossos passos.