Quarentena ano 2, dia X-tp7. Curitiba

Estamos no segundo ano de pandemia, quase completando dois anos de pandemia. Tem variantes novas muito mais transmissíveis vindo e obviamente o super vetor do Brasil não fechou o país, de novo, para que viajantes infectados chegassem aquí tranquilos pronto pra festas e um diagnóstico positivo de covid…

Precisei contar o saldo desse pandemônio. Além de todos os problemas de saúde, desesperos, vontade de não existir… Produzi minha arte, incluir a primeira publicada com meu namorado, aprendi a cozinhar, voltei pra dança, voltei pra yoga, tenho um grupo muito mais fortalecido, aprendi a bordar e sei que quero ficar um bom tempo sem precisar usar fones de ouvido durante as férias que se os deuses permitirem virá logo.

Então quando a Simone perguntar o que eu fiz… Eu fiz coisa pra caralho esse ano. Mal acredito que já estamos nos últimos dias de novembro, ontem ainda era 2019, não tive tempo nem de me recuperar de 2020 e acho que nunca me recuperarei. Vem 2022! Vem #forabolsonaro

Dia 101, quarentena. Curitiba

Eu ia escrever no 100º dia, mas meu final de semana foi ficar de molho e quando tentei pegar o celular pra digitar ele caiu na minha cara e eu chorei em silêncio e aguardei. Pois bem, hoje já passou de 100 dias da quarentena que ainda não começou porque os governos não têm coragem para decretar o tal do lockdown. Os casos aqui na cidade quintuplicaram, as UTIs estão lotadas e a cada dia tem mais festas e pessoas querendo que o comércio abra logo, inclusive muitos estão reabrindo mesmo com bandeira laranja. Final de semana precisei ir numa clínica porque minha lombar estava insuportável, provavelmente seja o ciático dando as caras e me lembrando da merda do lugar onde trabalhei até 2019, estou livre de lá, mas as consequências ficaram e, indo à consulta, que foi o mais longe que fui desde que começou o meu isolamento, e ainda têm muitas pessoas usando máscara no queixo (algumas nem usam), ainda tem pessoas sofrendo com outras doenças e estão ao deus dará porque a covid está lotando tudo. Na sexta, no dia 99, eu cheguei em casa da clínica, com dor, sem respirar direito pro causa da máscara e fui tomar banho, chorei. Eu realmente pensei no sentido do “valer a pena fazer tudo isso”, por um momento eu desisti, ali, apoiada na parede para conseguir suportar a dor que estava sentido, não apenas a dor física que me afligiu esta semana, mas a dor da falta de esperança e o sentimento de que, mais cedo ou mais tarde, vamos acabar morrendo mesmo, de covid ou não. Sei que tem muitas outras pessoas passando por coisas muito piores, mas não quero castrar o meu sofrimento. Estou numa cidade onde não tem estrutura pra dar apoio aos cidadãos, com um prefeito ainda covarde, onde tem cidadãos que fazem manifestação pra reabrir academia em plena pandemia (a mais letal das últimas décadas), num país onde não há investimento na saúde, educação, onde negam a ciência, onde sucateiam as universidades públicas. Esse foi um momento no qual eu havia desistido. Acabei deitando e dormindo, melhorei, a esperança voltou, mas tá por um fio.

#pride #28dejunho #vidasnegrasimportam #vidasLGBTQIA+importam

#forabolsonaro

X-PRS-99

Hoje fiz diferente. Abri uma garrafa de vinho, botei música pra tocar e dancei com a taça na mão. Derramei o vinho, ri. Fazia tanto tempo que eu não ria. Nem lembrava que a sensação era tão boa. Peguei dois cigarros e fui fumar numa área que parecia uma varanda, suada do ritmo frenético da dança. De olhos fechados respirei fundo, olhei as estrelas e sorri, eu havia, por um momento, esquecido onde eu estava. Uma lágrima teimava em aparecer e tomar a cena. Eu queria esquecer tudo o que aconteceu, afinal eu estava viva, mas vai ser impossível apagar da memória tudo o que aconteceu, todo o sangue, todo o desespero, todos os gritos ecoando. Espero que um dia eu volte a dormir como antes. Espero que um dia a gente possa voltar às ruas pra passear no calcadão ou tomar um café. Espero que devolvam nosso planeta.

Um natal horrível

Nunca aprendi a chorar. Não queria que ninguém me visse fraca, nem me ouvisse. Chorava quieta no banho, ou no quarto quando todos já haviam ido dormir. Acordava inchada, mal conseguindo abrir os olhos… mas era alergia, óculos escuros ajudavam a disfarçar.
Não queria que viessem “ah, como sofre essa menina” ou me dando mais motivos para me aborrecer ou entristecer.
Ainda quando tento chorar, fico com vergonha. Choro baixinho, pra mim. Não quero que outros se preocupem comigo ou pensem que é só eu exercendo a “drama queen” que existe em mim.
Vocês podem me ver chorando facilmente, mas não são por motivos concretos, muitas vezes vocês verão meus olhos mar-aguados, mas não é choro. Juro. Poucas pessoas já me viram chorando de verdade. Não sei se felicito vocês ou sei lá…
Minha cabeça dói, minha garganta não existe mais, minha boca e meu nariz são um só. Olhos ardem.

25/12/2014

Pronome Oblíquo

           Gosto em demasia da sensação que o precede. As asas batendo contra a parede do estômago, o sorriso rasgando minha boca, olhos fechados que voam. Talvez eu também goste da sensação sulfixa; depois de ler, falar ou ouvir tais dizeres e o corpo estremecer no êxtase desse raro verbete dito sem pretensões. O algo que ainda resfria o estômago, mas que ferve com o resto mortificado do corpo macilento. A surpresa é mais querida ao descontrole da frase repetida, pois caso perca o sentido já não arrepiará os pelos e, então, meu bem, o verbo mudará.