Dia 103, quarentena. Curitiba

Passei a última hora digitando um texto que acabou indo para a pasta de rascunhos, duas páginas de uma carta pra um algoz. Digitei, mas não é para ser publicada por enquanto. Hoje só aviso que estou aqui ainda. A dor diminuiu, mas são quase 5h e ainda não dormi. O receio sobre o futuro bate à porta. Notícias pipocam sem credibilidade. É a madrugada fria do último dia de junho. O sol está em câncer, mercúrio ainda está retrógrado e o bolsonaro não caiu ainda. Continuamos sem ministro da saúde. O cara que foi escolhido para ser ministro da educação tem plágio na dissertação, não defendeu a tese e mentiu sobre ter um pós-doc… Ele não será empossado, estamos no aguardo para saber quem vai ajudar o governo a destruir o que resta do Brasil e olha que nem vou citar o do meio ambiente! Entramos numa Frias maior ainda.

Espero, um dia, contar boas notícias.

#forabolsonaro

Dia 101, quarentena. Curitiba

Eu ia escrever no 100º dia, mas meu final de semana foi ficar de molho e quando tentei pegar o celular pra digitar ele caiu na minha cara e eu chorei em silêncio e aguardei. Pois bem, hoje já passou de 100 dias da quarentena que ainda não começou porque os governos não têm coragem para decretar o tal do lockdown. Os casos aqui na cidade quintuplicaram, as UTIs estão lotadas e a cada dia tem mais festas e pessoas querendo que o comércio abra logo, inclusive muitos estão reabrindo mesmo com bandeira laranja. Final de semana precisei ir numa clínica porque minha lombar estava insuportável, provavelmente seja o ciático dando as caras e me lembrando da merda do lugar onde trabalhei até 2019, estou livre de lá, mas as consequências ficaram e, indo à consulta, que foi o mais longe que fui desde que começou o meu isolamento, e ainda têm muitas pessoas usando máscara no queixo (algumas nem usam), ainda tem pessoas sofrendo com outras doenças e estão ao deus dará porque a covid está lotando tudo. Na sexta, no dia 99, eu cheguei em casa da clínica, com dor, sem respirar direito pro causa da máscara e fui tomar banho, chorei. Eu realmente pensei no sentido do “valer a pena fazer tudo isso”, por um momento eu desisti, ali, apoiada na parede para conseguir suportar a dor que estava sentido, não apenas a dor física que me afligiu esta semana, mas a dor da falta de esperança e o sentimento de que, mais cedo ou mais tarde, vamos acabar morrendo mesmo, de covid ou não. Sei que tem muitas outras pessoas passando por coisas muito piores, mas não quero castrar o meu sofrimento. Estou numa cidade onde não tem estrutura pra dar apoio aos cidadãos, com um prefeito ainda covarde, onde tem cidadãos que fazem manifestação pra reabrir academia em plena pandemia (a mais letal das últimas décadas), num país onde não há investimento na saúde, educação, onde negam a ciência, onde sucateiam as universidades públicas. Esse foi um momento no qual eu havia desistido. Acabei deitando e dormindo, melhorei, a esperança voltou, mas tá por um fio.

#pride #28dejunho #vidasnegrasimportam #vidasLGBTQIA+importam

#forabolsonaro

X-PRS-99

Hoje fiz diferente. Abri uma garrafa de vinho, botei música pra tocar e dancei com a taça na mão. Derramei o vinho, ri. Fazia tanto tempo que eu não ria. Nem lembrava que a sensação era tão boa. Peguei dois cigarros e fui fumar numa área que parecia uma varanda, suada do ritmo frenético da dança. De olhos fechados respirei fundo, olhei as estrelas e sorri, eu havia, por um momento, esquecido onde eu estava. Uma lágrima teimava em aparecer e tomar a cena. Eu queria esquecer tudo o que aconteceu, afinal eu estava viva, mas vai ser impossível apagar da memória tudo o que aconteceu, todo o sangue, todo o desespero, todos os gritos ecoando. Espero que um dia eu volte a dormir como antes. Espero que um dia a gente possa voltar às ruas pra passear no calcadão ou tomar um café. Espero que devolvam nosso planeta.

Dia 92, quarentena. Curitiba

Gente do céu (mas quem tá no Brasil tá no inferno, aquele do tipo cristão mesmo com fogo e pagando penitência sendo castigado por um demônio – não acredito nesses termos até porque Lúcifer foi injustiçado justamente por questionar um tirano genocida, mas preciso da analogia, então me dá licença que a poética tá passando), hoje o dia foi de lascar, tivemos um dia de riso frouxo e olhos brilhantes quando logo pela manhã leio uma mensagem que informava “sol em Curitiba é a segunda melhor notícia, a primeira é que prenderam o Queiroz”. Quase não acreditei, tanto que fui procurar no oráculo e, durante a tarde toda as redes foram bombardeadas com notícias referentes, inclusive uma delas foi que a polícia não sabia quem estavam indo prender para evitar que vazasse e, o mais louco, foi em um sítio em Atibaia (pra quem não lembra vou trazer umas palavras-chave: Lula, sítio, lava jato, preso político) e pior, ele estava escondido em um dos imóveis do advogado da familícia. Enfim, foi escoltado e, por segurança, foi levado de helicóptero (o que me fez lembrar de um outro famoso, o fernandinho). Até aí tudo bem, almocei vendo série e acabo passando por uma notícia que divulgava que o atual (calma que já chego lá) ex-ministro da educação revogou uma portaria de inclusão de negros, índios e pessoas com deficiência em pós-graduação, em seguida fez um videozinho super mal produzido junto com o chefe, que já estava com muitas outras caraminholas na cabeça pra realmente se importar com o conteúdo da reunião: a saída do ministro, o Ab até pediu um “abracinho” de despedida. A Inverno foi completamente ofuscada depois do show que ela deu pra ser presa, mas teve uma notinha de rodapé onde foi negado a habeas.

Bom… O jornal do patriotismo foi basicamente sobre isso, antes havia saído um monte de menes sobre como seria a reação dos apresentadores (ex: “é hoje que o Bonno entra empinando moto”)… Obviamente formalíssima, então dedicaram alguns minutos para falar sobre os ERROS DE PORTUGUÊS DO, agora, EX-MINISTRO DA EDUCAÇÃO, fora alguns dos crimes que ele cometeu… Mas lá todos são criminosos que não são punidos. Além da Inverno, a Covid também ficou de lado, foram registrados 1.204 óbitos só hoje e já passam de 47 mil ao total, mas que pouco foi falado, inclusive nada sobre algum tipo de avanço na vacina (até porque por aqui tá bem foda-se a questão da cura/tratamento, parece que estão fazendo de propósito pra “limpar” o país. Ora ora, quem poderia imaginar), muito menos sobre uma quarentena de verdade, inclusive tem prefeitinho autorizando a abertura do comércio e ralhando com o cidadão que “não coopera”. Convenhamos, só vão cooperar quando tiverem que pagar multa por desobedecerem (e multa deveria estar acontecendo já, caso o governo desse um meio de subsídio para os comerciantes e cidadãos). Hoje foi basicamente um roteiro que seria facilmente descartado por falta de verossimilhança caso alguém escrevesse um livro, “o autor tá forçando muito a barra já há alguns capítulos”, é minha gente. Assim acabo dizendo que vai sextar e estou receosa. Faz, mais ou menos, uns 20 meses, que não temos um dia sequer de paz nesse caralho, hoje foi o mais próximo que tivemos, sente o peso desse tal de “mais próximo”, de um dia relativamente bom pra quem sempre foi do time “#elenão”, então deu pra descansar um pouco, mas ainda o otimismo está beeeem longe. Vamos ver como o caranguejo vai andar nesse mercúrio retrógrado. (Ah sim, e estamos sem ministro da saúde há mais de um mês, mas esse assunto deixo para um próximo texto… Ou não).

#forabolsonaro

Dia 88, quarentena. Curitiba.

Lá e de volta outra vez.

Neste final de semana o prefeito da cidade onde moro indicou alerta laranja e a orientação é (re)fechar o comércio não-essencial (vulgo igrejas, que por mim era coisa pra fechar pra sempre, academias, lojas, salão, restaurantes…), mas os shoppings (que claramente são essencialíssimos) podem continuar abertos, mas não nos finais de semana. A baixa de vendas e as filas enormes nas portas deles acho que mostra quão essencial é um shopping aberto, pois as vitrines não serão vistas sozinhas… Inclusive, ainda espero uma resposta do defensor do prefeito alegando que ele fez, sim, coisas pra combater o vírus, mas o defensor me excluiu das redes e não me respondeu com dados relevantes o que foi feito.

Os casos aqui triplicaram depois que foi reaberto o comércio há duas semanas e, o prefeitinho disse que por nossa culpa teria que (re)fechar. Porra. Nossa culpa?? Culpa da falta de assistência do Estado pra que o comércio não declare falência ou precise demitir os funcionários. Precisamos de garantias de sobrevivência pós-pandemia. Não queremos ser obrigados a pegar ônibus, ir trabalhar e ter que aguentar merda de cliente e o vírus rondando. Queremos garantias que vamos ter o que comer semana que vem, mês que vem, ano que vem, década que vem. Quero aula presencial e não a falcatrua de um EAD meia bomba onde os profs estão se desdobrando em mil pra virarem blogueirinhos e satisfazer o sadismo de alguns alunos e colegiados que insistem que aula remota em curso presencial seria uma boa ideia só pra não perder o ano. Pois meu anjo, o ano já está perdido, então se não quer se prejudicar mais vai ler os livros da ementa, começa teus projetos por conta, mas não encha o saco querendo forçar um EAD que não vai atender a todos.

Quero voltar a trabalhar, garantir o leite dos meus gatos, chegar em casa e tirar a máscara e o sutiã e assistir série ruim cansada, mas recebendo meu salário. Quero voltar a ter vontade de tocar piano, de ler como eu lia, de chorar por dor nas costas e não porque o mundo está à beira de um colapso econômico e sanitário. Não quero ter que dividir espaço com negacionistas, com quem votou no bolsonaro, não aceito que esses imbecis neguem que a ciência tem razão em função de acreditarem que alho cura o covid19, não aceito que em 2020 tenha imbecis que achem que a Terra é plana 🌎 (até o emoji é redondo, gente. Apesar de ela ser geoide). Não aceito compartilhar o mesmo lugar com gente que acredita que vacinas causem autismo (ainda por cima acreditando que autismo é castigo divino). Vão tomar no cu.

#forabolsonaro

Dia 76, quarentena. Curitiba

Ontem tivemos protestos antirracistas em muitas cidades e não só na Brasil. Em meio a uma pandemia de uma doença ainda desconhecida, com potencial letalidade (ainda mais no atual desgoverno), muitos arriscaram a vida indo às ruas pedir por democracia, respeito a todas as vidas e com gritos antirracistas e antifascistas. Tivemos uma bandeira queimada, vidros quebrados e o que menos deveria ter: policiais metendo tiro e bombas nos manifestantes… quer dizer, menos devia ter não, porque protesto de verdade tem intervenção desses porcos (com todo o respeito aos animais, mas a analogia já é conhecida). Têm muita coisa queimando atualmente, mas o foco está na porra de uma bandeira. O fogo apológico da KKK foi usado nos últimos dias e a comoção destes, que estão criminalizando o ato do protesto anti-mortes, não foi tão preocupada. Muitos humanos estão quebrando nesses tempos, mas vale mais a pena se preocupar com vidros de agência bancária. Quantas vidas perdidas por conta da má administração (completamente ciente) do excrementíssimo e sua corja, quantas família sem pão (nem brioches, mesmo que do chão), sem água, sem nada a não ser a vontade de continuar existindo. Quantas Marielles, Joãos, Georges, Agathas são abatidos e não tem o mesmo impacto que uma bandeira em chamas num protesto com simbolismo tão intenso.

#ForaBolsonaro #VidasNegrasImportam