Dia 74, quarentena. Curitiba

Hoje foi mais um dia daqueles, só que hoje teve manifestação à favor da democracia (nem sei o que sentir sabendo que não tô escrevendo uma ficção); torcidas organizadas antifascistas foram pras ruas deter bolsonaristas no “protesto” deles à favor da violência, do fechamento do STF, de apoio à intervenção militar, ao extermínio de determinadas pessoas… É surreal levantem bandeiras e símbolos de apologia ao nazismo e saírem impunes. É surreal a polícia DEFENDER E PROTEGER esses manifestantes de merda. É surreal que somos, apenas, 70% e ainda estejamos nessa situação. É surreal que ele ainda não caiu e que inclusive está reunindo a horda e se levantando mais rápido e sem vergonhas e aparentemente mais fortes.

#forabolsonaro

Dia 66, quarentena. Curitiba

Eu escrevo nos meus extremos, hoje é um desses dias, estou vazia e lascas de terra soltam do chão com o resvalo dos meus pés na borda do abismo. Olho, chamo, eco. Ventania tenta me desequilibrar e poderia ser um ajuda ao passo seguinte, quero fechar os olhos e seguir, mas tem alguém me segurando, algo talvez… Algo sádico que quer me ver um pouco mais nessa dúvida do pular ou sentar um passo atrás. Hoje estou sangrando e dói muito, estive sentada por parte do dia, quando levantei fui encarada novamente pelo abismo fundo, respirando tão fundo até arder os pulmões ainda minhas pernas bambeiam da adrenalina do simples pensamento de o que me aguarda lá. Já são mais de dois meses isolada esperando o isolamento começar. Estou caminhando para o beleléu, mas pelo menos tenho o luxo de poder ir pra lá.

Dia 60, quarentena. Curitiba

Não temos um dia sequer de paz nesse caralho. É agonizante saber que tem um genocida na presidência do país. É agonizante saber que ele não vai sair de lá tão cedo, pelo menos não até ter certeza que vai entrar um pior. Os ministros que foram escolhidos a dedo para destruir o país estão cavalgando de cabelos soltos cumprindo esse dever sádico. Todos os dias somos bombardeados com notícias sobre as novidades da destruição, porque não basta a pandemia de um vírus letal e desconhecido, precisamos também de um ajudante pra ele. Poucos trouxas estamos fazendo distanciamento físico, usando máscaras e ficando em casa lavando compras que ainda podemos pagar, os outros estão por aí comprando roupas em lojas ainda abertas, indo ao salão porque o cabelo não pode sofrer desidratação e ter umas pontas secas e as barbas precisar ser aparadas; ah, e músculos precisam se manter ativos em maquinarios suados porque fazem parte da lista de afazeres essenciais em uma crise de pandemia, porque a economia, a SANTA ECONOMIA, não pode parar. Os que ainda se mantém reféns em casa ficam, no mínimo, frustrados por seguirem as recomendações e não poder agredir quem defendo o excrementissimo. Parece que temos que aceitar calados a barbárie, porque não adiantou fazer as passeatas em 2019, não adianta protocolar pedido de impeachment, não adianta expor toda a merda que está acontecendo, não adianta ele mesmo escancarar toda a sujeira dele, da família e da corja que ele chamou pra trabalharem juntos, ele mesmo parece estar implorando pra tirarem ele de lá à machadadas, mas nada disso está adiantando… Como proceder? O que podemos nos permitir sentir nesses momentos? Estamos fechando 60 dias de isolamento pseudo-voluntário, mas tem os que ainda não abrem mão do cafezinho na padaria.

Dia 59, quarentena. Curitiba

Parece que a palavra “esperança” perdeu o sentido ultimamente. Até podemos nos referir a ela, mas o significado fica solto, fica à deriva nesse oceano turbulento. O final do dia é uma ressaca. Eventualmente você acaba dormindo na praia e se a maré sobe você pode acabar sendo levado pela água, mas novamente há a esperança, aquela de que não suba e você possa ficar na areia sonhando enquanto dorme sob um céu estrelado. Sinto dizer, mas a maré vai subir e vai descer eventualmente, e talvez você tenha achado um espaço na areia fofa para ficar seguro ou talvez não, a orla fica perigosa mesmo. Você também pode ir pro calçadão sentar e olhar as ondas quebrando e aguardar amanhecer para ver o sol nascer, respirar a brisa da maresia e recarregar os pulmões para mais um dia incerto ou apenas dormir seguro e torcer para que, quando acordar, tudo isso tenha passado ou pelo menos que não seja mais um pesadelo.

Dia 54, quarentena. Curitiba

Estou me sentindo uma inútil. Nesses últimos dia eles voltaram, não quero eles aqui comigo de novo. Estive me sentindo vazia, não consigo me concentrar para ler (escrita está acontecendo por puro desespero), estou engordando (o que não seria problema se eu conseguisse ficar saudável, mas não estou), minha pressão fica baixa com mais frequência e eles continuam aqui. Preciso de parque, preciso respirar sem ficar preocupada sem máscara, quero sair pra caminhar, ir pra faculdade, ficar a tarde toda na biblioteca pública e levar pra casa a mochila abarrotada de livros e ficar com dor nas costas, quero a minha cama, meu cobertor, meus moletons (fui pega de surpresa vindo pra casa do namorado pensando que só iria ficar um final de semana, estou quase completando dois meses e não quero ficar indo e vindo e criar uma zona de risco pra minha mãe ou pra ele), quero voltar a comer pizza e sushi fora de casa e em casa sem medo. Pode parecer radical, mas estou paranoica o suficiente pra aprender o máximo de receitas possíveis pra nunca mais precisar pedir nada por aplicativo ou de lugares que não conheça o procedimento de manipulação. Preciso trocar meus óculos, mas meu oftalmologista não está atendendo por motivos óbvios, então minha vista está cansando mais rápido e com isso fico com dor de cabeça e sonolenta, meu dia é perdido.

Ontem foi dia das mães, liguei pra minha porque não estou com ela; o que está sendo muito bom, pra ambas, de alguma forma, acho, e ela me solta um “deus está demorando um pouco pra resolver isso porque algumas pessoas precisam desse tempo pra avaliar a vida delas” e eu não sei se concordo. Fui criada no cristianismo, católica apostólica romana, fui forçada a fazer catequese, eucaristia, crisma e constantemente pressionada a seguir um matrimônio no qual o conceito é um homem passar a posse da mulher pra outro homem (pois bem, meu pai já é falecido e quero que esse conceito vá pra casa do caralho), seguindo isso eu só respondi pra ela “bom, que ele se resolva logo com a humanidade porque tem gente morrendo por irresponsabilidade de governo. E é muita inocência pensar que todas as pessoas que sobreviverem repensarão a vida delas porque foram acometidas por uma pandemia”, logo me arrependi porque ela ainda vê esse suposto deus genocida (biblicamente falando, não é o primeiro extermínio dele) como salvador, mas não estou aqui para julgar a fé dela, se isso a está mantendo viva é o que basta. Mas se é pra repensar a vida, esse deus podia ser mais seletivo e matar só imbecis que votam a favor da violência, aqueles que ajudam a destruir o meio ambiente liberando agrotóxicos e queimando florestas e matas, aqueles que não se importam com a vida do outro (seja índio, negro, latino, asiático), aqueles que só querem poder e mais e mais dinheiro, aqueles que nunca ajudaram ninguém e que querem proibir outros de ajudar. Seja mais seletivo, assim as pessoas podem começar a pensar duas vezes se vão prejudicar o outro. Dizem que é onipotente, onipresente e onisciente, então compactua com toda essa merda ou no mínimo não é poderoso o suficiente ou é apenas um sádico genocida.

Quase dois meses em isolamento, sem poder ver meus amigos, engordando e me sentindo uma merda. Se todos tivessem começado o isolamento juntos não estaríamos mais assim, não teríamos batido recordes de mortes por Covid, já estaríamos pensando em reabrir comércio, não estaríamos com mais de 11 mil mortos (só os confirmados do brasil) e já teríamos organizado as quermesse junina. Mas não, tem os príncipes e princesas que precisam tomar a porra do café deles na cafeteria badalada da cidade, os que vão pra praia bronzear o corpo santo deles, os alecrins que tão fazendo festa no ap toda semana, também os que abrem baladas clandestinas pra ralarem a bunda no chão. Se tivéssemos parado em março, a bunda sedenta de vocês não estariam passando vergonha de sair em jornais como os criminosos irresponsáveis que são. Negacionismo é cruel e espero que não percebam isso só quando um nome que vocês conhecem aparecerem no obituário, porque lá já tem muitos nomes que outras pessoas conhecem.

#ForaBolsonaro #morteaocapital #bolsonaristanãoégente