Dia 43, quarentena. Curitiba

            Fiz trinta anos há pouco mais de dois meses. Teoricamente, estou no meu segundo ano da minha segunda graduação. Final do ano passado estava pesquisando mestrado para tentar seleção. Estava com projeto de escrita de três artigos para submeter e caçando iniciação científica na universidade… Pois muito que bem vem o covid-19, acende uma fogueira e joga meus planos e sonhos pra alimentar a chama.

Estamos tentando manter o contato com o curso e a faculdade, mas ‘tá osso, viu… Meus professores que querem manter funcionando estão passando pelos bocados de um ensino remoto que comigo não funciona, sinto-me pressionada a trabalhar num momento onde não deveria estar pensando nisso, sei que serei cobrada a posteriori e, não sabendo se vou continuar ou não cursando essa graduação, nem se ela continuará existindo numa universidade pública, nem se terá incentivos à pesquisa (além de ter um criacionista na presidência da CAPES, hoje o CNPq cortou o PIBIC das ciências humanas). Não temos um dia de paz nesse caralho desde as eleições de 2018. Eu estava querendo manter um diário de bordo da quarentena, mas queria fazer mais ligado na ficção… só que a realidade está tão surreal que a ficção não faria sentido: então seguimos dessa forma confusa, desconexa e desesperada;
Novamente, fiz trinta anos há pouco e a sensação de morte iminente está me assombrando o dia todo, mais que deveria. Estou constantemente a ponto de explodir no choro, então vou pra cozinha; cozinhar está me acalmando (às vezes me irrita, ainda mais depois de fazer a porra da higienização das compras). Aprendi receitas novas, entendi porque minha mãe odeia fazer alguns pratos, percebi que receita é bom pra base porque o toque fica por nossa conta mesmo, descobri que ouvir Belchior é quem me ajuda a fazer os melhores pratos sem importar o meu humor porque ouvir “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro” me dá certo alento, já passei por situações esquisitas, mas uma pandemia complica um pouco meu otimismo, então ter uma puxada pro lado do “vamos ficar bem, estamos juntos mesmo que separados” ajuda.

Gostaria de dizer para todos os meus amigos que vamos passar juntos por isso, fiquem em casa, usem máscara se forem sair, saiam apenas se for extremamente necessário, respeitem e protejam a vida dos outros, apoiem produtores locais, fogo nos racistas, morte ao patriarcado, FORCA PROS FASCISTAS E FORA BOLSONARO.