Invisibilidade

Esse é um poder que queremos quando somos criança e que alguns até conseguem quando viram adultos, mas não é aquele poderzão que lemos nos quadrinhos quando sonhamos em ativar o botão certo. Quando crescemos, a invisibilidade, é diferente, ela vem no trabalho com a falta de cumprimento e respeito de clientes pra você – claro, isso se você for proletariado -, ou do patrão que finge demência quando você está doente ou pede um aumento, mas só aumenta o trabalho porque o salário ainda é risível. Vem também das pessoas que esbarram em você na calçada porque não conseguem fazer sinapses suficientes pra desviar 5cm pro lado e evitar, porque você já não pode fazer pois anda perto da parede ou pro lado da rua movimentada ou até tenha um canteiro do teu lado. As pessoas são imbecis mesmo, até você, pois acredite você não é o floquinho de neve especial que acha que é e, você continua sendo invisível até pra você mesmo. Não ganha sorteios, não nasceu com “a bunda virada pra lua” como dizia minha vó quando alguém tinha sorte, teus amigos esquecem compromissos que marcaram contigo, claro eles têm a vida deles também, os problemas deles, mas você também tem, né? O botão quebra e chegam as contas e as cobranças por erros cometidos, te xingam, te humilham, te demitem, te cobram presença, te forçam a viver feliz e a por a porra de um sorriso na cara, te cobram estudo, te cobram bom comportamento, te cobram namoro com um cara decente (mulher, caso você já seja um cara, porque é inadmissível gostar de alguém de gênero similar e nem vou entrar mais fundo em todas as letras), te cobram casamento, se casam, ele te bate e não é daquele tipo de fetiche BDSM que é muito mais discutido no teu círculo que violência de gênero, não pode separar você prometeu até a morte os separar, espere mais um pouco que deus vem te fazer cumprir essa promessa, mas aguenta mais um pouco e renove as desculpas pras marcas no corpo e põe o sorriso na porra da tua cara, te cobram filhos agora que casou. Imediatamente! Ah esses sagrados, não aborte mesmo você não podendo ter agora, é crime, não aborte, abrir as pernas foi bom, agora aguente, tenha o filho, não tenha depressão pós parto, aguente feliz, destrua teu corpo, perca sua identidade, perca tua vida pra um parasita, tenha um filho e nunca mais veja teus próximos preocupados com você, só com a tua cria, te cobrarão cobrir os seios, te cobrarão educação da cria, te cobrarão ser mãe (ou pai) mesmo ninguém sabendo o que isso realmente signifique. Te cobram até o uso certo de pronomes oblíquos, imagina a vida certa que deveria ter? E mesmo assim continue invisível.

Pronome Oblíquo

           Gosto em demasia da sensação que o precede. As asas batendo contra a parede do estômago, o sorriso rasgando minha boca, olhos fechados que voam. Talvez eu também goste da sensação sulfixa; depois de ler, falar ou ouvir tais dizeres e o corpo estremecer no êxtase desse raro verbete dito sem pretensões. O algo que ainda resfria o estômago, mas que ferve com o resto mortificado do corpo macilento. A surpresa é mais querida ao descontrole da frase repetida, pois caso perca o sentido já não arrepiará os pelos e, então, meu bem, o verbo mudará.