Aquele do passo pros trinta

    O mês do meu aniversário passou a ser um período bem angustiante. Muitos aniversários bons, mas também como num inferno astral, que não acredito que exista, têm os momentos ruins. Aquele dos seis anos, por exemplo; e não sei bem se os bons compensam. Às vezes me pego planejando meu ano, meu futuro, outras penso no fim. Mas não acaba, nunca. Parece uma tormenta que vem chacoalhar tudo e me desesperançar muito mais. Então eu respiro fundo, encho meus pulmões até doerem e solto fragmentos segurando um choro que viria frenético.

    Estou chegando aos trinta, e não quero. Não queria, pelo menos não queria estar como estou. Pensei que seria tudo tão diferente. Sinto-me um fracasso, uma fraude. Não sou nada, mas já tenho os malditos quase trinta.

   Eu não deveria estar me sentindo pesada, mas estou. É um peso que eu jamais pensei que carregaria, sempre pareci tão segura quanto meus projetos, mas sou feita de falhas e muitas delas. Quero mudanças, mas com elas o medo precede e não sei se sou capaz de aguentar. Tudo o que me cerca está afundado em merda, daquelas bem fedorentas e viscosas e grudenta o suficiente pra me afundar mais.

    Inevitável, então haverá festa, terá um bolo, doces e até talvez alguns bons amigos. Vou tentar parecer agradecida, mas no fundo eu sei de coisas que prefiro não saber. Então será assim, mais uma fraude. Mais uma falha. Sem saída.