Sentinela

          Estou há mais de duas horas rolando na cama, de um lado pra outro, mentalizando “não é hora pra isso”, mas de tanto que evitei acabou acontecendo e, hoje tive uma recaída: pensei em você. Lembrei dos nossos dias e sinto saudades, não que mude algo, você está tão longe nesse momento. Só não posso negar que sinto e hoje chorei por isso! Lembrei do lar que era seu abraço, lembrei do afago de seus beijos. Lembrei. Não que mude algo.

Pranayama

        Sente-se confortavelmente no chão, dobre as pernas e junte as solas dos pés. Sinta os dedos se conectando, o vão que se forma no centro, os calcanhares juntos; a sua coluna precisa estar esguia. Os ísquios no chão, alinhando as costas e a cabeça. Respire fundo uma vez, concentrando em alinhar a coluna. Solte. Respire fundo mais uma vez. Com as mãos repousadas em seus joelhos, prepare em Gyan, pontas dos dedos polegar e indicador se juntam num circulo deixando os outros dedos abertos. Solte. Respire fundo. Solte. Respire fundo. Solte. Respire fundo. Solte.

 

 

Cenário Vespertino

ATO I

(Deitada numa rede, um gato ronronando em meu peito enquanto observo as água do mar no seu completo direito de ir e vir, batendo contra rochas e fazendo espuma. O gato modela seu pãozinho no meu colo e descansa tranquilo ao som das ondas trazendo conchas à areia. Meu coco com água é o elixir do meu dia, o sol no alto nos engana com uma tarde quente de verão, mas as nuvens que se foram revelam uma primavera tardia.)

Ordem nº. 20

         Chegar cedo pro abate. Ser alimentado por meses antes do abate, pra estar gordo e forte, seleção natural. Atrasou ou vai pra fila, marcha, marcha, olha pra baixo, tenso. Tua última refeição não foi zelosa, não pensou nela como comida, como prazer, comeu pra não morrer, pra morrer agora e ela foi desesperada. Você sabe o que te aguarda. Espera, senta, organiza. Desenha bolhas. Aguarda o julgamento. Aguarde a execução.

Fractal

        Hoje me peguei vendo as tuas fotos antigas, aqueles álbuns que você insistiu em deixar em casa criando pó, aquelas fotos dos teus tempos que não voltam. E, depois de tudo, ainda me ouço falando “puta que pariu, esses olhos ainda me encantam” e, suspirei com teus sorrisos, abracei as fotos e acabei dormindo. Acordo em prantos porque sei que você não está aqui. Soluço minha dor pra fora do corpo, mas ainda está tudo aqui dentro. Só tenho as fotos e as lembranças e meu coração que não pulsa além de visões em êxtase.

Ausências

       Minhas feridas e curas que habitam apenas o meu mundo onírico de cores fauvistas e dores difusas. Coisas que só existem imaginadas, presenças que só sinto os vultos roçando meu corpo e beijando meus lábios. Gozos inexistentes no plano sinfônico.  Intermináveis aventuras exaustivas no lado impossível do real.

Místico

Pensar em amor é algo que automaticamente traz você aos meus pensamentos. Teus gestos, teu carinho, teus medos, tuas angústias, teus sonhos e pesadelos, teus cabelos, teus olhos, tuas mãos, tuas voz musical melodiosamente doce. Você. Por inteiro. Queria evitar esse tipo de conclusão, mas fica cada vez mais difícil negar essa obviedade cáustica. E não consigo mais evitar afirmar pra mim mesma o que sinto, não consigo mais fugir, nem deixar secar num canto isolado até morrer. Não. Assumo pra mim. Dizem ser o primeiro passo, mas ainda vai continuar guardado, até minha garganta explodir e eu gritar pro mundo.