Circo de Horrores

        Permaneço como um animal enjaulado, servindo de atração pra um público de gente merda. Uma janela anuncia, talvez, que a tarde corre solta e nada me espera. Meu céu é quadrado e podemos chamar de desespero olhar pra cima e tentar enxergar a lua, ou o sol e ver as nuvens passando, formando tempestade. Uma gaiola pequena e apertada, com pouco alpiste. Meu canto maldito é surdo, minhas asas cortadas e minhas cores desbotadas, um bico sem ponta, sem poder nem ao menos bicar as minhocas do solo.

Caos Neutro

Sobre estar fora do tempo e ser forçada a estar presente.

       Sentimento de ódio prevalece sobre o estar. Caos,  eu grito. Ouvem. Gritam comigo, nos meus ouvidos, como sussurros vistos de longe. Engana-se quem vê! Ouça. Calor maldito, empapa-me as roupas e a fronte, desespero reina, suor sangra nos poros. Deixe-me. Liberte-me. Socorro! A raiva me consome e embriagada de rancor acabo por estragar o que me resta de paz.

Colina de Lama

       Parece uma festa, pessoas gritam, falam alto, riem, não consigo entender o que falam. Reclamam. Meu deus, como reclamam. Cachorros latem e crianças choram num grito agudo. Louças tilintam. Corpo dói, cabeça reclama paz, silêncio, um minuto de silêncio é tudo o que peço. Aqui parece um canto do inferno, onde almas errantes queimam e eu agonizo num terror sólido.

Ritual

       Depois de finalizar mais um dia no trabalho, passo no mercado pra comprar alguns mimos pra mim. Vou pra casa, descarrego as compras, ligo a torneira pra encher a banheira e escolhos meus sais azuis pra essa noite. No toca-discos coloco Dire Straits pra rodar. Sirvo-me de uma taça de vinho branco, acendo umas velas; sim, um momento bem filme cliché, ando merecendo ser cliché ultimamente. Entro na banheira e fico alguns minutos contemplando a água com bolhas de sabão… percebo que esqueci meu livro, mas tudo bem, hoje vamos focar em outras coisas: eu.

     Minha pele já está suficientemente enrugada e isso me força a sair da água de um quase morno ruim. A toalha nova é tão felpuda e macia que me dá vontade de morar nela. Enrolada, saio pelo corredor dançando ao som de Telegraph Road, mais uma taça de vinho me ajuda a preparar uma massa e um molho, especiais pra mim. A mesa é posta, vela acesa no centro, prato, talheres, taça. Sem esquecer de desligar modem e celular. Nem a cebola cortada me faz chorar, hoje é um bom dia. Na sacola dos mimos procuro um sachê pra mimar meu mimo preferido. O gato da casa, alegria da minha vida. Estava dormindo, o safado não acordou nem pra me dar boa noite, mas foi só ouvir o barulho sagrado que veio desfilando e se enroscando pelas minhas pernas e miando alto exigindo a recompensa por ter ficado o dia todo sozinho. Então eu e meu gato jantamos juntos e em seguida vamos pra sala assistir algum filme até dormir.

    Minha manta está quentinha, aparentemente ele a adotou durante o dia. Meu pijama já está alinhado ao meu corpo e enrolada na manta só espero começar o primeiro filme que está na sugestão e ele vem no meu colo pedindo cafuné, impossível negar e assim passamos a noite.

Elefante Colorido…

       Saudosista me encontro, estou lembrando de tempos mais simples, das brincadeiras de rua, dos vizinhos que tive (e que ainda permanecem) e dos dias que passávamos brincando das 9h às 23h. Dias quentes, dias frios, noites, férias, filmes, portão, calçadas, doces, piscina, porões, gatos-filhos, refri da turma da mônica e salgadinhos, bonecos, carrinhos, toalhas de picnic sob árvores com flores rosa e “departamentos” em árvores onde nos encaixávamos tão modestamente bem. Bicicletas aceleradas pra cima e pra baixo na rua pouco movimentada da zona sul. A nobre padoca ao lado de casa com pães quentinhos que alvoroçavam as bichas da gente. Tempos simples, passar horas na biblioteca do colégio, ler uma série de livros sem se preocupar com mais nada a não ser manter as notas na média. Acreditar que a vida vai melhorar aos dezoito anos…

    Um dia, sem mais nem menos, foi o último dia de brincadeiras, de conversas até anoitecer, de risadas sobre a primeira regra do vôlei, das mãos vermelhas machucadas pelo três cortes e caçador, dos joelhos ralados, dos dedos sem tampão, da nossa infância.

… que cor?

Nômade

        Meu bem, por que és tão cego? Não consegue ver-me de forma alguma. Estou aqui, aguardando um sinal, um aceno, uma vontade, um momento. Por que não me vês? Estou de fronte a ti, há tanto tempo que nem sei mais contar. Meu bem, por que és tão cego? Também anseias por um amor, também desejas um aceno, toma o meu, entrego a ti por inteiro. Meu bem, peço que mire minhas suplicas, essa alma errante queima por ti, dá-me um sinal que retiro-me ou jogo-me mais fundo.

Restos Mortais

Meu café da manhã de hoje foi um copo de whisky vagabundo e cinco cigarros, mas comi uma maçã pra limpar a garganta. Pronto para sair pro trabalho, aquele inferno pessoal onde ganho pra trabalhar, mal consigo pagar meu aluguel. Estou enforcado, mas ainda agonizando, a corda não apertou o suficiente para matar de vez, o balde já levou o chute, mas eu só me debato.

Minha esposa agora é ex-esposa, não tenho filhos, nem casa própria, não tenho diploma, nem nada. Esse whisky que tomei hoje comprei num posto de beira de estrada, acho que paguei dez conto nele, os cigarros vieram junto, acho que a moça ficou com pena.

Não sei mais o que faço. Acabei de chegar no lugar que preciso chamar de casa, meu banho não pude tomar, cortaram minha luz e água, estou sem pagar há uns três meses. Talvez eu sente no sofá da sala, abrace a garrafa e beba até entrar em coma alcoólica, mas sei que o mais provável será uma ressaca do caralho.

Demônio Maldito

               Prometi a mim mesma que não escreveria sobre você, mas não sou dessas que cumpre promessas a si mesma e, não me culpe, teu perfume me acompanhou se instalando em meu casaco e, tua voz ainda ressoa nas profundezas da minha alma, teu olhar sereno me acalma e me perturba e teu sorriso doce me encanta e será minha danação eterna.

Bistrô

            Um jantar maravilhoso, regado a syrah e agradável prosa. Ainda estou alta, mas lembro perfeitamente bem de algumas coisas, assim como umas conversas e afins. Exemplo perfeito: numa conversa, nossas mãos sobre a mesa e ao aproximarem-se, eu pego minha taça com água e beberico, tocam-se e meu peito palpita. Tentei distrair-me consciente do ato e nossos dedos dançam, ao som de um pop francês tocado ao fundo no ambiente, uns com os outros e nossas mãos, tímidas, fundem-se entrelaçadas. Repouso o copo e te olho, você me sorri pois já estava a me observar; teu sorriso terno e tão gentil, um pouco tristonho no fundo, mas ao me dar conta já estou te sorrindo em retribuição, derretida em vontade de falar alguma besteira e envergonhada por alguma razão. Sem graça ambos baixamos os olhos e de canto de boca surge um riso muito mais tímido. Dedos ainda brincam juntos.

        Garçom nos tira da agonia daquela intimidade e por uma ótima causa, nossa sobremesa chegara, um crème brûllè que está, aparentemente, muito saboroso. As mãos repousam sobre colos enquanto o doce nos é apresentado e servido. Rapidamente te olhei, mas não trocamos olhares dessa vez, você parecia muito concentrado no doce – ou concentrando forças pra não falar ou fazer nenhuma besteira. Acredito nisso pois eu estava concentrada, não queria estragar a noite com nenhuma piada infeliz, portanto falei menos que o normal, apesar de nossos assuntos serem extremamente excitantes pra arriscar ficar monossilábica.

         Queria um espelho pra me analisar tanto quanto fiz contigo, mas apenas posso repassar as minhas sensações aqui. Meus olhos quase não precisando de lentes por conta do brilho intenso que eu sentia emanar, com certeza eu devia estar sorrindo de corpo inteiro. Por favor, tenha percebido isso.

        Passou rápido demais o tempo, já estávamos pagando a conta e ao sair do bistrô você segurou minha mão e eu entrei em choque, senti uma leve pressão e uma descarga elétrica percorrer meu corpo. Arrepio. Sorriso. Olhos fechados. Você me sorri de novo e eu enrubesço, você por sua vez, no mais alto grau de amabilidade e cuidado comigo me abraça e me pede desculpas por ter-me rido. E não teve problema. Quero saber o que está acontecendo. Não quero soltar esse abraço, mas preciso. Então você segura meu queixo pra que eu te olhe e encosta o nariz no meu. Sorrindo com lábios e olhos você me beija a testa e caminhando até em casa aproveitamos a maresia à beira-mar e as estrelas no céu noturno guiarem nossos passos.