Outros Gerúndios

       Eu queria mesmo era estar teatrando… Queria estar teatrando, não pude, ou achava que não podia continuar. Queria estar pesquisando corpo, pesquisando performance, fazendo performances, dançando, maquiando, sangrando… Queria que o teatro continuasse fluindo em minhas veias, queria. Ah! Como eu queria! Continuo querendo. E, querendo ainda mais fazer vazar por outras linhas, outras áreas, outras comunicações, outros tempos, ou até mesmo outros cenários. Querendo outros sangrares, outras pesquisas, outros estudos, outros outros… estar outrando no teatro pra performar outros ciclos, pesquisar teatros outros sempre querendo o mesmo sangue. Sangrar teatro pra outros, em desespero, agonizarem em nojo. Gritar em não-lugares saudades corpóreas em maquiadas danças noturnas e outros tecidos embebidos de suor e dor. Batidas surdas e outros querimentos invisíveis na cidade doce. Queria não estar me sentindo um fracasso gerúndio. Queria ainda mais não estar usando o título no texto.

 

Mais Passarinhos Voando.

      Um ataque cardíaco foi o motivo da última leveza na minha família. Meu avô, finalmente, descansou. Não vai mais precisar ouvir ninguém gritando nos ouvidos dele o que ele deve fazer nem como. Nossa Amiga foi piedosa e o aceitou dessa vez. Apesar de eu não ter vindo aqui pra falar dele e essa ter sido apenas uma apresentação do novo escrito é importante ressaltar: mais um passarinho voou e, eles fazem isso.

      Descobri que a minha maneira de lidar com essa passagem é me isolando ou, estar com pessoas que me fazem bem. Nada de ficar velando corpo, olhando algo que já começa a apodrecer e está maquiado o suficiente pra não causar repulsa nos visitantes. É só um corpo, morto, já passado e engomado pela Vida. E esse dia chega pra todos. Então por que ser forçado a ficar olhando um corpo morto dentro de um caixão com flores que também irão morrer enquanto parentes vem te cumprimentar com pena e aquele maldito olhar de “coitadinha dela”.

     Aproveitei meus momentos com os meus passarinhos, é claro que todo dia que penso neles, acredito que eu poderia ter feito muito mais coisas com eles, falado mais coisas, passado mais tempo com eles. Eu acreditava (e ainda acredito) que quem amamos são imortais, não o corpo, mas os momentos que passamos, as lembranças e todas as memórias sensoriais quer teremos ao longo da nossa Vida. Então por que passar esses momentos “finais” sabendo quão finitos somos e como faremos sofrer as pessoas que amamos e que nos amam? Por que passar por esse ritual doloroso dessa despedida sádica que a família nos força? Esse momento deveria ser aproveitado como somos e como achamos mais apropriado, não sendo obrigada a velar e ir na procissão da sala funerária ao mausoléu. Eu me sinto mais conectada com os passarinhos fazendo coisas que me deixam bem, pois conhecia eles o suficiente pra não quererem me ver chorando diante do corpo gélido deles.

      Meu primeiro passarinho foi minha vó, passei assistindo um filme maravilhoso que me ajudou nesse processo, enquanto isso passei conversando com um grande amigo, que inclusive foi quem me indicou esse filme. Foi a minha pior madrugada até aquele momento, mas mesmo assim foi minha, eu precisava passar daquela forma.

     Meu segundo passarinho foi meu pai, foi o pior dia da minha vida. Foi o dia em que mais chorei (e acredito que nunca mais conseguirei sentir tanto por uma perda), passei um tempo na sala funerária e, não aguentando, não acreditando que aquele seria meu último momento vendo o corpo físico dele, eu saí. Fiquei sentada no banco na frente da capela. Eu estava com um amigo, aquele mesmo (sério, obrigada mesmo. Você sabe quem é, se estiver lendo isso, por favor acredite que foi e ainda é muito importante pra mim). E eu sei que meu pai não iria quer me ver mal. Inclusive, lembro que ele sempre fazia brincadeiras sobre o assunto quando íamos visitar o pessoal no dia de finados. E eu sei que, pra mim, ele é um eterno. Tivemos nossos problemas, claro, mas era pra cama dele que eu ia quando chegava da faculdade, era com ele que eu conversava quando queria contar algo, nem que fosse um plot twist do livro que estava lendo no momento (ele me aguentou contando O Senhor dos Anéis).

    O terceiro foi meu vô, pai do meu pai, não éramos muito próximos, mas vem novamente aquilo das pessoas com pena: “coitadinha, perdeu o pai ano passado e agora o avô”, eu nem conhecia a pessoa que me disse isso. É por isso que quero que essa passagem seja só minha, ninguém é empático o suficiente pra saber o que cada um passa no luto de alguém.

     Hoje foi meu outro vô, o vô com o qual compartilhávamos terreno, então o contato era mais próximo. Passávamos horas conversando quando eu não estava correndo pra ir trabalhar ou ir pra aula. A pessoa que sabia que eu não estava reclamando à toa, a pessoa que sempre estava ali comigo se eu precisasse. Ele e meu primeiro passarinho.

    E agora estou sozinha, tendo que ir velar material orgânico e passar por todos os caminhos das lembranças ao receber abraços de pessoas que não me conhecem.