Quando você é criança te perguntam o que quer ser quando crescer e então tua mente fervilha de possibilidades, uma parece ser mais excitante que a outra, você se empolga quer fazer de tudo. Então você cresce e vira um poço de fracassos. Um nada, indo pra lugar nenhum, com ninguém.

Histórico Escolar

Eis que você, está com seus 5 anos e quer ser veterinária porque lembra que anos atrás sua galinha morreu e sabia que podia fazer com que ela continuasse viva, mas acabaram fazendo uma galinhada com as outras do galinheiro. Então, você percebe que sabe lidar com a morte melhor do que os “adultos” achavam que você lidaria, afinal ela é uma nova amiga… E eram só galinhas de acordo com eles, e isso de morte e essa coisa toda não permanece na memória infantil (ou foi moldada), mas nada pra se preocupar.

Aprendeu a desenhar as letras no papel com o pai incentivando ao presentear com lápis de cor e caderno sem pauta e com pauta pra caligrafia, mas gostava mesmo era de redesenhar personagens dos desenhos que assistia.

Acordava cedo, assistia desenho enrolada num cobertor, na época, novo e comia seu mingau antes de ir pro balé. Balé sim, porque balé é pra menina, nada de fazer judô porque é muito violento e é pra meninos. E no balé tinha que usar roupa rosa e nunca gostou de rosa, pediu collant preto, sapatilhas pretas, faixa preta, mas não de judô, essa era pra cabeça mesmo, pro cabelo comprido de menina não cair nos olhos e atrapalhar um giro. Mas fazia balé porque era bom pra coluna cifosica que o doutor detectou. Até que gostava. Até que chegou no limite da repetição sem sentido matadora do tempo de crianças ociosas.

Aos 8 você gosta de brincar de escolinha e chama teus amigos, mas você gosta de ser a aluna, já sabe que não teria paciência pra lecionar (e nem sabe o que poderia). De repente vai pra casinha e senta na cama de uma boneca, sozinha porque se esgotou do contato com outras crianças e se sente mal por ter tantos amigos e não conseguir aproveitar a presença deles, eles se preocupam contigo e vão brincar de casinha também e te preparam biscoitinhos de terra com rabo de gato e sentam a sua volta e, ainda preocupados, contam histórias, piadas, coisas que aconteceram, coisas que não sabemos se aconteceu mesmo… E anoitece e você acaba querendo jogar bola com eles na rua, felizmente a rua era tranquila, e esses amigos eram seus vizinhos então estava tudo certo pra um “três cortes” ou caçador… Até às 22h, eram férias da escola e na manhã seguinte acordava cedo e ia chamar os mesmos amigos ou era chamada pra ir brincar. Férias, bons tempos.

Na aula, um aluno pergunta pra professora porque a lua muda e a explicação não convence, então passa dias na biblioteca pesquisando pra se responder porque também ficou curiosa, e passa mais algumas semanas lendo sobre astros e sistemas solares e, meu deus, como nebulosas são lindas e um novo amor surge.

Perto dos 10 anos quis ser cientista, descobriu isso verbalizando pra uma amiga enquanto brincavam de barbie porque sozinha fazia experiências com elas, mas a amiga disse que cientistas não acreditam em deus e, naquela época você ia pra catequese e achava que essa era uma das verdades da vida: deus existe e é o ser supremo de amor e da piedade e a família católica ajudava nisso. Incentivava. E então a ciência foi deixada de lado e não se sabe mais o rumo de nada. Mas já sabia que não queria filhos também, mas o que uma criança que não tem nem uma dezena de anos sabe o que quer? “você vai crescer e vai mudar de opinião e vai me dar netos e casar com um rapaz bom”. O que uma criança com nem uma dezena de anos pensa sobre isso?
– Oxe, eu tô errada então? Eu preciso casar e ter filhos pra ser feliz?
Nem uma dezena e olha só o que a leitura faz com a criança… Tsc tsc

Aos 10 pede ao pai um caderno sem pauta e giz de cera, ganha uma maleta com vários lápis, giz, canetinhas, tintas… E começa um portfólio de desenhos; mas não cria, só reproduz, mas reproduz com êxito. Sente-se mal por não saber criar. Desenhista de verdade cria. Para.

Na escola, finalmente, começou a ter aula no laboratório de ciências. Ciências era a matéria favorita, mas a professora implica com muitas coisas, principalmente em não mexer nos vidros de química. O que é química e porque não pode mexer se vai ter cuidado pra não quebrar nada e nem abrir os potes de água colorida? A professora não explica. Então seu pai, novamente, presenteia com paixões, ele te conhecia. Coleção da Barsa e atlas completo. Diversão garantida.

O recreio deixa tudo muito barulhento lá fora. Dentro da biblioteca era mágico, silencioso e tinha tantos livros que pareciam tão bons, mas que jamais conseguiria ler todos, apesar de querer tentar. Vagando entre uma estante e outra vê-se na frente de uma pequena e fina coleção de livros de mistérios e conhece o Sr Holmes e o Dr Watson, coração dispara e a cada página lida sentada no chão do corredor dos livros policiais encontra o primeiro amor literário e o ajuda a resolver os crimes e se sente bem quando ele fala que estava certa e se presenteia pegando o próximo da série. Anos depois rele, mas divide a paixão com um amigo, emprestam os livros e trocam durante a semana. Português é uma forte candidata a ser a favorita e, então, ciências se divide. E lembra os pokemon iniciais, sabe quando precisa escolher um? Não precisou, aconteceu, a preferência ficou clara, mas ainda não havia encaixe. Aos 14, pensando em tantas possibilidades, tantas coisas pra aprender e descobriu que tinha que escolher logo porque o vestibular tava batendo à porta.

Quem aos 17 anos sabe o que quer da vida? Porcentagem baixa, quase inexistente. E quem sabe, sabe se vai ficar nessa área pra sempre? É muita pressão, pressa, responsabilidade demais pra alguém que deveria estar atualizando lista de animes pra assistir. Crise, depressão, reprovação no histórico. Como aceitar que era uma boa aluna se reprovou de ano? Vestibular está chegando, escolha, precisa ser alguém na vida, escolha o que você gosta, desde que seja medicina ou direito. É tudo pelo seu bem, diziam. Escolheu pela arte, por algum motivo, por algum chamado, por alguma brincadeira, por algum tipo de sorte…

GRR2010 anos dourados. Escolha certa pro momento. Muito recente, muito apego, poucas palavras, ainda vivo. Ainda sinto que que estou no caminho. Só peguei um desvio para procurar algum hotel e me instalar por um tempo até acalmar algumas coisas no interior. Fico na cidade grande, ainda com dúvidas e medos, mas com uma cama pra deitar no final do dia e um pão com manteiga de café da manhã.

Altruísmo Antagônico

     Esgota-me pensar que seres humanos não foram feitos para nada além do egoísmo, não pensa-se em fazer o bem porque é instintivo, não é natural pensar no outro antes de si mesmo, proteção é mais um conceito de possessividade – nada altruísta. Pensa-se em fazer o bem ao outro por puro egoísmo, para sentir-se bem consigo mesmo. Um protagonismo desesperador e urgente por visibilidade. A ‘antagonia’ sôfrega e cansada de sentir-se bem com o mundo. Nada é instinto, apenas um sistema que é nada  além da auto-proteção ou da auto-piedade.

Pinot

      Claramente estou nervosa e, olha que, não será o nosso primeiro encontro, mas dessa vez, sei lá, parece diferente; ele me chamou pra ir jantar na casa dele… Ele ia fazer o jantar. Penso em levar vinho, mas ele não quis me falar o que vai preparar, não sei qual vinho levar. Deus, o mundo sofrendo com a fome e a guerra e eu aqui paranoica por possivelmente errar na harmonização entre comida e bebida. Respira fundo. Esquece o vinho, foca em não chegar lá e parecer uma imbecil ao ver o sorriso dele, foca em não gaguejar quando ele falar oi (com aquela voz de seda, quente e macia e… Foco…), a gente se conhece a milênios por que ele ainda tem esse efeito sobre mim? Meu Deus, ele vai me abraçar… Calma, fazemos isso sempre, por que agora seria diferente ou especial? Sempre é especial. Os braços dele não mudaram, talvez estejamos no nível de abraços mais apertados e demorados. Não, isso é loucura, não existe nível coisa alguma, abraço é abraço e ponto. Não pira!
Respira fundo.

Intensamente Etéreo

      Tudo parece ir bem até você tentar se abrir; abertura feita com machado e, entranhas retiradas a fórceps, similar à cura de uma doença, você está se libertando de algo que te faz mal; ou é o que querem que você pense – porque você sabe que teu organismo se livraria daquilo, criamos anticorpos com o passar do tempo, eles dão conta, mas você se submete à consulta, aos exames, ao tratamento de choque. Você só queria que teus anticorpos agissem antes e fizessem aquilo morrer dentro de você antes que causasse algum mal, efetivamente. Algum mal maior. Algum arrependimento. O fórceps enferrujado. Tétano. Coisas acontecem, coisas mudam. Você se sutura, dá um tempo pra recuperação, e os remédios te consomem, e ninguém desliga os aparelhos, e ninguém liga,  e você fica mudo. Tu tu tu tu tu