Ensaio sobre Dois Mil e Dezessete.

  Talvez o título mais correto seja “Ensaio SOB Dois Mil e Dezessete. Visto que fui enterrada, soterrada e esquecida…

   Esse ano começou estranho. Começou comigo sozinha, desempregada, sem pai, sem vontade, me fez (mais) auto-destrutiva, não conseguia acordar cedo, não queria sair da cama, quando saia meus banhos eram longos demais. Um combustível falho pulsava quente em minhas veias, acho que eu precisava de fogo…

    Tive mais empregos que em qualquer outro ano e, mesmo assim, só fazia uma coisa. Comecei a gostar de sair do meu refúgio, fui novamente fisgada por uma fantasia, me apaixonei, voltei a estudar de verdade, comecei um novo caminho sem abandonar o anterior. A cor voltou ao meu rosto, estou desperta e em um mundo paralelo!

    Eu não estou tão bem quanto queria e pior do que prefiro assumir, então não sei onde ficarei nesse momento. Sei que estou apenas jogando um monte de palavras nessa pagina, mas juro que antes de publicar eu edito. Hoje é agosto, então todos sabemos que terei 87 anos, 2648 meses e 795 dias pra editar até o final desse ano.

    Agora estou em outubro, é Beltane e estou conseguindo sorrir. Sorrir apenas não, mas rir, de verdade, espontaneamente. Algumas pessoas já comentaram que eu até pareço mais feliz, mais calma. Minha biblioteca está aumentando (e minha lista de leitura também… socorro). Pessoas que me fazem bem ainda continuam comigo (espero que eu também esteja fazendo a vocês).

    Hoje é dezembro… está acabando. Já tenho minhas metas, já estou no projeto de algumas. Esse novo ano vai ser diferente… Vai ser diferente? Veremos. Vou sobreviver, assim como nesse que acaba amanhã. Vou sobreviver, renascer como uma fênix, viver. Preciso. Quero. Eu juro, a luta apenas começou e eu não vou ficar numa trincheira o ano todo. Não posso, não quero. Resistência.

 

 

 

 

 

Terno e sentimento

       E hoje você me acordou com um beijo. Tão macio e suave. Tão doce e suculento. Tão saudosista e melancólico. Fiquei preocupada contigo, você disse que estava tudo bem, mas eu sei que não estava. Passou o dia, almoçamos juntos, saímos pra dar uma caminhada na praça perto de casa e voltamos prontos pra um banho e logo surgiu a ideia de fazermos um bolo. Laranja foi o sabor escolhido. Ir ao mercado é sempre uma tortura, nossa cestinha ficou cheia de repente e nem compramos o que queríamos, voltamos a procurar os ingredientes do fatídico bolo. Passamos no caixa e você estava cabisbaixo, você não é assim, nunca foi.

     Em casa questionei de novo o que estava acontecendo e você apenas começou a ir pesando a farinha, espremendo as laranjas! Por que você não fala comigo?? Eu estava separando os ovos e você me abraça por trás, sim, derrubei um pedaço de casca de ovo no bolo, cadê? Achei. Tirei. Virei. Abracei de novo. Beijei. Fiz cafune em seus cabelos. Ficou melecado, desculpa, era a mão com massa; você riu, até me enganou que estava melhor. O bolo está assando e eu to ficando paranoica, O QUE ESTÁ ACONTECENDO?

     Sentados no sofá, prontos pra ver algum filme enquanto o bolo assa, você segura minhas mãos e fala que está pronto pra conversar; você diz que não sabe o que está acontecendo, mas que talvez esteja com saudades de pessoas que não deveria querer ver no momento. Teus pais. Eu sei, vocês tiveram momentos ruins, mas foi há tanto tempo, você nem deveria lembrar deles, afinal eles te abandonaram.

Você sabe que tem meu apoio se quiser procurá-los.

Não é isso. Eu sei onde estão.

Onde estão?

É sobre isso que eu queria falar, não querendo…

Você está me preocupando…

Não, meu amor, não se preocupe, não podemos fazer nada mais

Onde eles estão?

Estão mortos… Descobri ontem voltando pra casa, você já estava dormindo, não sabia se te acor…

Devia ter me acordado, se precisava falar algo… devia ter me…

Não, agora não adianta mais… já aconteceu, e estou te contando agora. Desculpa

Tá – respirando fundo até doer os pulmões – o que está acontecendo? Como você descobriu?

Por isso – uma carta – estava na caixa de correio de noite.

Devo ler?

Pode. Mas não aconselho.

[…]

Meu Deus.

É. Eu avisei que era melhor não ter lido.