Hei, você

Acho que estou morta.

Não, não posso estar, quer dizer, não deveria. Não lembro de ter morrido, mas fica a sensação de invisibilidade. Não gosto da palavra “ACHO”, porém não encontro uma melhor. Minha memória deve estar indo embor… NÃO! NÃO, EU NÃO ESTOU MORTA!

Ok, vou contar porquê estou:

Tudo começou com um sonho. Sonho sim, pensei em pesadelo, mas não acordei mal (se é que acordei) – nem bem. Sonhei com quem amei há um tempo, eu estava cuidando da casa dele enquanto sei-la-o-que-aconteceu e, então senti seu perfume, vivo, pulsante, enebriante. Acordei. Procurei por ele, mas eu estava na minha cama. Sozinha. Fiquei pensando nele o dia todo (não que eu não fizesse isso com certa frequência, depois que o perdi). E então me veio o pensamento: Por quê? Por que estou fazendo isso? Ele nem lembraria de mim. E então veio o conflito existencial e agora eu estou querendo saber se morri. Apesar de eu ainda sentir a dor da perda, sentir que supostamente tem um coração batendo e um cérebro pulsante aqui nessa concha. EU sinto isso, mas não sei se outros sentem que estou aqui ainda.

E sei que você não vai poder me ajudar. Possivelmente eu esteja escrevendo isso num papel que não existe, com uma caneta invisível e atemporal. Sem contar, que a ideia de saber que você mal sabe que um dia eu vivi não é absurda.

[…]

Por um momento até queria que fosse uma carta de suicídio, mas não sei se pode ser… Posso estar me dando conta de que morr… mas como? Não lembro. Só sei que estava sonhando e acordei… Acho. Talvez eu tenha morrido. Sim – não pro mundo, mas pra alguém – e não sei me despedir. Bom, desculpa pelo tempo perdido de vocês (se é que alguém vai ler isso). Apesar de que posso nem estar escrevendo isso e isso ser apenas fluxo mental do sonho ainda. Sim, não acordei ainda. Dizem que se você morre num sonho você acorda, então ainda não estou morta. RÁPIDO! ME ACORDEM!!

Alegoria do Corvo

     Ela vem rastejando, te comendo pelas bordas. Mordisca seus pés e você sente um leve desconforto que não sabe de onde, mas isso te deixa com dores e você começa a andar mais devagar, quer se apoiar nas paredes, mas essas são moles e instáveis e você perde a segurança. Não quer desistir? Se ajoelhe, peça por atenção. Não, ninguém vai te ver, está abaixo da visão deles, mas continue… Quem sabe alguém sinta algo! Teus joelhos começam a ficar esfolados e o sangue a chama novamente e ela continua te devorando cada vez mais sedenta e voraz. Ela sabe que vai ganhar.
Tuas pernas já não funcionam mais, você não sabe como continuar e deita. Deita esperando ser só um sonho ruim. Não é, a dor é real e o vazio começa a se propagar.  As coxas estão ali, tão inúteis quanto um cascalho, então consciente e sangrando, você chora, baixinho, que é pra não incomodar; mas ela ouve e te disseca até o quadril, já não há mais balanço.
Você não quer ficar ali, esperando ela acabar. Junta todas as forças que tem e se rasteja em busca de alguma coisa… Pra onde está indo? Pra um lugar onde uma parede de renda te segura e impede de passar. É tão linda… Devo ficar por aqui, talvez você pense. Teu coração está acelerado, você sente ele doer a cada pulsação. Toda sistole é um tapa e toda diástole é um choque. Você sente que não aguenta mais, mas sabe que aguenta… E ninguém te vê, então não importa.
O cansaço te pega e te faz adormecer, quando acorda vê que ela está em cima de você te observado e ao ver seu desespero volta ao trabalho e te abre com uma navalha velha, mexendo em teus órgãos. Nesse momento você sabe que não vai conseguir mais comer, nem se aliviar, nem beber… Você vê teus ossos sujos do teu próprio sangue e teu fígado aberto jorrando bile. Aquele gosto férreo invade tua boca e o gorfo vem, mas não tem nada para expelir… Então ela arranca teu coração, mas deixa um fina fibra de conexão e o faz repousar ao lado do teu corpo inerte…
Ela te pega pelos cotovelos e se debruça sobre você e assim come seus dedinhos. Um por um. Como se fossem twix… Segue pelos pulsos enquanto você agoniza sem reação, teus braços estão perto do fim também… Há muito sangue e ela se banha nele. Ela é linda e está te querendo por completo.
Ela morde sua barriga e sobe pelo peito e num ato amoroso te dando beijo no pescoço alivia um tanto o peso de toda essa aventura.
Sua cabeça já não precisa de seus ombros então ela continua o processo. Mais dor. Maldita.
Um beijo em seus lábios sela o fim.
Sua mente é desfeita, destroçada e você começa a rir um riso esganiçado e cruel e a vê. Calma. Doce. Sedenta. Sua língua é rapidamente arrancada e os lábios já não se mexem.
Ela quer que você veja, que você assista o banquete e segurando seu coração e lambendo o sangue fresco que escorre por ele e pela mão que o segura. Bastaria um aperto pra que num ataque cardíaco tudo fosse diferente.

Ela não o aperta

      Lentamente ela degusta… Cada fibra, cada artéria, cada veia… Assim como faria com uma boa macarronada. E você assiste com fascinação a tudo aquilo… Ela deixou os olhos por último, todos sabem que o gosto deles é melhor. Eles explodem na boca como se fossem jabuticabas doces e maduras. Então você começa a grunhir em desespero, não sente mais dor, não sente alívio, não sente mais nada, nem que está ali, nem que tem alguém ali. Mas tem um leve bicar e, lentamente vai perdendo o privilégio de assistir àquilo… Sem corpo, sem coração, sem língua, sem olhos! Calmaria.

Violão

Sinto que hoje encontrei o amor da minha vida.

Eu estava cuidando dela, esperando o metrô e me recuperando do livro que acabara de ler; então ele veio andando em minha direção, com uma case, que eu pensei ser de um baixo, ele senta ao meu lado no banquinho do terminal e desembainha o violão. O violão é confortavelmente acomodado em seu colo e ele começa a dedilha-lo… uma musica conhecida, Stairway To Heaven, do Led Zeppelin. Sem perceber eu já estava envolvida, mas ele emendou Do I Wanna Know… que bom gosto meu amor tem. Sorrindo e cantando mentalmente fui novamente embalada por seu dedilhado ritmado e acabei me perdendo e não reconheci a música seguinte, mas me nocauteou com Metallica, aquela suavidade do violão, acariciando meu coração e o aquecendo nessa noite fria.
O metrô que ele estava esperando chegou e nem tive como agradecê-lo pela companhia, nem pelas músicas, nem por existir… ele guardou o violão, nos olhamos… desviei… nos olhamos de novo, mas ele já havia levantado e estava se encaminhando pra entrar e seguir viagem. Achando um lugar, posicionou a case fechada entre as pernas e nos olhamos novamente, eu sabia que devia ter levantado e ido falar com ele (talvez não fosse a melhor ideia, ele podia estar atrasado, ou no minimo querendo chegar ao seu destino o mais rápido possível). O meu metrô chegou, levantei, desolada, procurei seus olhos e mais uma vez nos despedimos. Talvez nunca mais eu o veja, mas obrigada.