Votos Metafóricos

Respiro fundo como se fosse mergulhar num oceano profundo; porquê, de fato, é isso, não? Respirar todo o ar que consegue antes de se envolver nas águas misteriosas onde quis se meter. Respirar sem medo que vá lhe faltar ar quando estiver envolvido na viagem. Respirar fundo sabendo que você é você e está fazendo isso porque já sabe o que quer e o que precisa.

Depois de respirado já não faz sentido soltar o ar sem ter ao menos molhado os cabelos. Então aos poucos vai mais fundo no mar, explorando o que há para explorar. Às vezes é só água mesmo e aqueles micro-bichinhos que estudamos em biologia… outras vezes conseguimos ver recifes, algas, peixes dos mais diversos, culturas de seres marinhos, cores distintas que deixam a paisagem belíssima, digna de fotos para wallpaper de computador… Podemos, também, descer muito mais, em zonas que poucos ousaram explorar e ver seres perigosos, diferentes, mas com a luz que cabe a eles para deixa-los belos e sobreviverem no meio onde foram colocados.

E quando o oxigênio fica escasso, sabemos que podemos voltar à superfície e recarregar os pulmões para descer novamente; ou não, a viagem pode não ter sido boa ou foi desesperadora demais e então preferimos não voltar lá ou, até que foi interessante, mas, nunca mais voltaria por já ter sofrido com a turbulência subaquática ou, também, pode ser que, já não haja mais peixes bons por lá, a água pode estar contaminada, então tentamos outro oceano…

Para aqueles que voltam, puxam mais um pouco de ar ou descem com um cilindro de oxigênio para aproveitar melhor o tempo ou aqueles que se adaptam e criam guelras para poder se unir ao novo universo que tanto lhe encantou… são para esses aventureiros, esses novos peixes, novas criaturas, que dedico essas linhas. São para peixinhos que, em seus aquários particulares, se fazem criaturas adeptas a outros peixinhos ou ao sistema completo e correm o risco de se afogar ou passar a fazer parte de um novo mundo.

Posso dizer que minhas guelras estão funcionando muito bem, obrigada. Que desci às zonas abissais e achei maravilhoso o que encontrei por lá. Que as cores dos recifes que vi formam uma palheta de cores que nem os maiores pintores conseguiriam ter, mesmo compondo misturas de todos os pigmentos existentes. Que há uma rica cultura de outros seres vivos e daqueles decompostos nesse mar em que me aventurei. Que sei que há mais para mim aqui, já sobrevivi a alguns terremotos que me assustaram um tanto (bastante, confesso), mas agora está bem aqui, claro que o solo se danificou um pouco e poderá acontecer mais vezes (torcendo que não mais, porque isso desequilibra o ecossistema, o meu sistema), mas não estou preocupada com isso…

Então o texto está dedicado, também, a esse mar que me aceitou em seu conjunto natural e me deixa satisfeita em saber que sou querida nele, que sou bem-vinda, que posso continuar sendo eu, um EU adaptado, mas eu. E acima de tudo livre. Um dia posso querer voltar à superfície, mas no momento ficarei aqui para sempre.