Carta a um leitor

Me disseram que seria bom eu contar isso para alguém… não consigo contar face a face então usarei esse artifício, uma carta, como você bem está vendo. Meu nome é Poliana, tenho 34 anos e sou do Espírito Santo, isso talvez não importe, mas quero te contextualizar.

Naquela época eu estava noivando, e com 27 anos. Gabriel, meu namorado, pediu minha mão uma semana antes do ocorrido… Eu preciso ir tomar um ar agora, mal consigo respirar ao lembrar de tudo o que acontecera.

Desculpa essa interrupção, estou mais calma agora. Desculpe-me novamente, vamos voltar… Naquele vinte e sete de junho, às 20h nós estávamos voltando de uma feira de produtos orgânicos e resolvemos ir cedo pra casa, pois viajaríamos para São Paulo na tarde seguinte, então precisávamos arrumar as coisas para a viagem. Chegamos em casa e fomos tomar banho, juntos. Demoramos o suficiente para relaxarmos e deitamos um pouco na cama.

Fiquei de lado pra ele, vendo-o descansar e respirar tão levemente, nunca pensei que… nunca pensei que aquela fosse a última vez que faria aquilo, deveria ter aproveitado mais.

Dei um beijo nos lábios dele e fiquei mexendo em seus cabelos, ele acordou, me olhou, me fez carinho no rosto e colocou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha. Mordi, de leve, o lábio dele e avisei que ia pegar umas bolachinhas que havíamos comprado mais cedo. Fui à cozinha e peguei um pacotinho que julgava ter um bom conteúdo.

Voltei ao quarto com a intenção de comer as bolachas enquanto arrumava as malas com ele. Quando chego no quarto eu o vejo se mexendo convulsionante na cama, pensei que ele estava tentando se coçar ou fazendo sei lá o quê, eu ri e falei para ele vir me ajudar, fui pegar uma mala no guarda-roupas. Foi aí que vi que não era tão brincadeira, ele estava babando muito e com os olhos revirados. Entrei em desespero e agora lembrando minhas mãos tremem, você não pode ver como sairia a minha letra, isso é documento virtual, mas lhe asseguro que estariam ininteligíveis e eu precisaria de mais um tempo para me acalmar, faço isso agora, mas só por essa distração de conteúdo.

O meu desespero crescia, pulei na cama ao lado dele, o segurei no colo e coloquei um tecido na boca dele para não engolir a língua. Minha sogra avisara que ele tinha alguns acessos, mas fazia 3 anos que não acontecia um. Liguei para o hospital, chorando, não faço ideia de o que a atendente entendeu o que eu disse, mas pedi uma ambulância urgente. Passei o endereço e em 20 minutos eles chegaram (ainda bem que não pensaram ser trote, penso nisso agora, na hora eu não pensava em nada, minha mente ficou branca… acho).

Acho que desmaiei, só lembro de estar num quarto de hospital que fedia a esterilização. Eu estava com tantos fios ligados em mim que me senti uma uma máquina, sem emoções, sem nada. Vazia. Acordando eu ouvi algumas palavras e uma me soou um “el”, logo lembrei da última coisa que lembro até acordar nesse quarto: Gabriel, babando tendo uma convulsão em meu colo e eu sem poder fazer muito a não ser chamar uma ambulância e rezar para aquilo ser um sonho. Não era. Era a maldita realidade. Eu queria saber dele, o que havia acontecido?

A mãe dele foi me visitar, aos prantos e, eu quase sem conseguir falar tentei sentar na cama e fiquei olhando para que ela me indicasse algo. Meu desespero aumentava a cada segundo de silêncio. Ela, finalmente, falou que ele foi para a UTI, os médicos não depositavam esperança nele. Ele teve um infarto ao mesmo tempo da crise.

Uns cinco minutos depois, que mais pareceram meio século (soube o tempo exato porque tinha um relógio redondo em uma das paredes do quarto), um médico apareceu chamando D. Marisa e ambos ficaram do lado de fora do meu quarto, então só consegui ouvir um grito sufocado e louco que reconheci ser dela. Eu, inconscientemente, comecei a chorar e puxar os fios que me ligavam à máquina barulhenta e consegui levantar para sair daquele quarto e saber o motivo do grito. Eu já sabia.

O médico e D. Marisa estavam indo ao quarto dele, ninguém me viu segui-los, era uma área semi-restrita, pelo que fiquei sabendo depois. Então entrei no quarto, eles estavam desligando-o da máquina barulhenta dele. Eu surtei, corri como pude até ele, e o abracei e beijei, ainda estava quente. Tentaram me controlar, mas me debati tanto que acabei machucando o médico e eles tiveram que me dopar.

Acordei um dia depois, no mesmo quarto fedido. Sem tantos fios e com algumas flores decorando o quarto. Tinha uns envelopes, mas sabia o que eram, não os abri, ainda hoje não os abri, nunca os abrirei. Gabriel morreu na semana do nosso noivado. E agora, sete anos depois, estou contando isso. Minha escrivaninha está encharcada, meu nariz escorre e acabaram meus lenços. Não sei porquê estou aqui ainda.

P.S. Relida e revisada para correção.

Chá

*ela liga o computador e vai assistir alguma coisa, pausa e abre uma conversa*

*ele está “offline”*

*ela, então, vai à cozinha e pega uma caneca com chá de pêssego, voltando, abre um documento de texto e começa a escrever qualquer bobeira que nunca mostrará a ninguém*

*ela desiste de não publicar e pensa* quem vai entender mesmo? *e sorri*

*em seguida clica em [Publish Post] e volta a assistir o desenho que assistia*

Mexa.

Vem, foge comigo. Seremos só nós; e você… e eu; sempre, até o fim do eternamente (in)finito.

Vem, me faça sorrir; sempre. Pegue-me pela mão, me mostre as estrelas, o calor da luz solar, a volúpia da lua e suas fases. Tire-me do chão, me beije como se só isso importasse pelo resto da vida e da morte e do além… Segure-me firme e me leve. E espere o retorno de cada ato e a iniciativa de tantos outros…

Vem, se permita ser levado comigo. Esteja comigo nessa viagem. Sinta-se. Liberte-se. Ame-se. Desanuvie sua mente…

Vem comigo.