Laguna

Ele caminha por aquela rua molhada de chuva de três dias seguidos. Poças d’água, suja e gélida, chamam seus pés distraídos que afundam junto com seus sapatos velhos. É noite, não, já é madrugada e vai longe ainda… ele não sabe bem pra onde, mas vai… Deixou em casa uma carta e duas rosas beijadas pra esposa e para sua filha que ainda nem saiu das fraldas. Quando Isabel ler a carta ele já estará longe e ela chorará a anunciada viuvez prematura.

Pedro não sabe bem o porquê precisa fazer isso, ele apenas sente. Sente que não é mais útil ao casamento, nem na criação da pequena Alice e, Isabel não precisa mais dele, além disso, o trabalho não o satisfaz como antes – se é que algum dia já o satisfez. Ele já percorreu alguns quilômetros enquanto Isabel e Alice estão na casa da sogra dele.

O casamento ia bem, mas Pedro… Pedro não queria continuar com aquilo, ele sentia que não pertencia a ele, foi um erro aquele casamento e provavelmente, pensava ele, Alice nem vai sobreviver até poder entrar na escolinha… assim como os gêmeos que partiram ainda no útero da amaldiçoada Isabel. Ele não conseguiria ver aqueles pedaços de carne sangrenta e sem vida naquela bandeja, não de novo ou o caso do pequeno Marcos que, tinha 4 anos quando caiu num lago na casa de verão deles, por um momento de distração por conta de um chutinho que a doce Alice dera na mãe enquanto ainda não havia nascido. Os dois se encantaram com aquilo na varandinha com rede colorida e os pássaros cantando tão alto que não se sabe se foi por isso que os gritos de Marcos não foram ouvidos. Pedro beijou a barriga de Isabel que já estava no seu sétimo mês e quando virou pra trás sorrindo e admirando a paisagem viu que tinha algo boiando no lago, mas nem se importou olhou rápido pensando que fosse o cachorro nadando.

– Não temos cachorro!! – pensou ele e correu pra ver o que era. Chamou por Marcos enquanto corria até lá e nada de o filho aparacer e Isabel começou a ficar tensa e sentir contrações. Isabel pensava que Alice nasceria prematura, pois já havia dado sinais de que a bolsa ia se romper a qualquer momento e como tinha dores fortes ela pensava que Alice não iria vingar.

– Não, Alice, não agora… – disse Isabel à filha. Não era hora. Não foi.

Pedro pulou no lago nadando até o corpo que boiava de costas e quando o virou viu o filho morto em seus braços, Marcos estava num tom arroxeado e começava a inchar. O pai, inutilmente, tapou o nariz do filho e com a boca pressionando a de Marcos começou a sugar a água que foi para os pulmões do pequeno, mas não ia adiantar. Pedro nunca se perdoou pelo momento de vaidade ao prestar mais atenção em um feto do que no filho que demorou tanto para chegar para eles e que foi levado por essa maldita distração.

Pedro voltou a trabalhar depois da licença paternidade, mas já não era o mesmo. Não conseguia ficar na casa da maldição, com a esposa de útero ruim e aquela pequena maldiçãozinha que por um… milagre? Nasceu forte, sem doenças nem nada que tenha sido visto ainda na maternidade. Ela era perfeita. Não chorava à toa, brincava quietinha com suas bonecas e brinquedos eletrônico e de pelúcia e tudo o que ganhara em seu chá de bebê e aniversários.

Pedro esperou Isabel e Alice saírem e assim saiu também, mas sem intenção de voltar para elas.

Aquela carta… Talvez Isabel ficasse aliviada por Pedro ter ido embora, ele já não falava coisas muito sensatas, acho que ele deve ter bebido uma garrafa (ou duas) de whisky ou, talvez não, mas que aquelas palavras não saíram de uma mente sã isso, digo, que não saíram.

Ao chegar em casa, uma semana depois de terem ido visitar a sogra (ex sogra posso dizer) de Pedro, Isabel e a pequena viram as flores e aquele pedaço de papel na mesinha de centro da sala, Alice foi posta no cercadinho para ficar brincando enquanto a mãe abria a carta para ler. Isabel pegou uma das rosas, sorveu o perfume que vinha dela e a segurou pelo cálice, então começou a ler a carta. Chorando e tremendo, quase terminando a carta ela esmagou a rosa e suas unhas perfuraram a palma de sua própria mão. Ela gritou de raiva, dor e olhou a filha que estava olhando para as pétalas esmigalhadas no chão.

Isabel pegou Alice no colo e a ninou com algo que parecia a marcha fúnebre. A pequena dormiu segurando uma mecha de cabelos da mãe e assim, com Alice no colo, Isabel foi pro sofá assistir alguma coisa. Por uma maligna coincidência era jornal de notícias da tarde, alertando que um homem foi encontrado morto boiando numa praia vizinha, ela sabia que era ele, não foi reconhecer o corpo no Instituto Médico Legal. Pedro virou indigente e está amontoado e mergulhado em formol com outros corpos inchados e roxos e verdes.

[…]

Alice está com 14 anos e sua irmã, Camille, tem 10 e veio de uma gravidez linda e sem problemas. Isabel conseguiu ignorar essa parte da sua vida e agradece por Alice não lembrar de nada, a não ser pelo fato de que não consegue sentir cheiro de rosas sem enjoar e vomitar. Camille é a caçula e Isabel tem um novo marido, Gabriel. Casados há onze anos, com todos os seus defeitos, mesmo assim é perfeito para elas. E prefere não saber sobre o passado de Isabel…

E Isabel agradece sorrindo.

Otnemitnessa

Ela passou a noite toda chorando. Seus olhos acordaram ardentes, com olheiras muito roxas e seu rosto estava inchado. Ela fumou cigarros de muitos maços acabando com todos. Bebeu até o próprio quarto ficar com um cheiro insuportável de álcool vomitado e fumaça de cigarro barato.

Ela queria não ter acordado naquela manhã, mas acordou, para a desgraça da dona do pensionato que foi cobrar-lhe os três meses atrasados. Na verdade foi sorte dela, imagino que encontrar um corpo em decomposição deitado em sangue ou outras sujeiras não teria sido mais agradável, pelo menos era só bebida.

Rachel acordou com as batidas pesadas de D. Lúcia na porta de madeira podre daquele quase mausoléu no terceiro andar. Uma dor aguda percorreu todo o cérebro dela e passou pra coluna e pro abdômen. Ela vestia só uma calcinha azul de algodão e percebeu que estava nesse traje só depois que D. Lúcia a viu e começou a chamá-la de puta e outras coisas que Rachel não ouviu porque a cada letra dita com aquela maldita voz trazia mais aflição aos seus ouvidos e mais pontadas sua cabeça sofria.

Rachel fechou a porta antes de D. Lúcia terminar de falar, mas depois de ela ter feito seu papel como proprietária de um imóvel destinado a aluguéis. Rachel murmurou algo como “essa semana estou para receber… calma…”. Voltou ao quarto e procurou por cigarros, não achou nada, já havia fumado tudo. Procurou por mais alguma droga… nada. Ela havia consumido tudo nos dois dias que passara ali trancada do mundo. Ela precisava comer, mas não sentia fome, nem sede, nem nada. Pegou o celular e ligou para um camarada, ele sempre vinha até o pensionato, mas ninguém o conhecia, nem Rachel o conhecia. Ela disse algumas palavras, ele disse alguns números, ela concordou depressa e em menos de meia hora ele estava à sua porta lhe entregando uma caixinha com alguns pacotinhos dentro, ela entregou algum dinheiro, ele contou na frente dela e disse “cuidado”.

Rachel se trancou no quarto. Rachel começou a viagem. Rachel acabou com a caixa. Rachel parou de sentir. Rachel foi examinada. Rachel não foi mais vista.