Pessoas

Tem aquelas com quem não me importo e tem as que não se importam comigo. Tem aquelas que eu amo, tem as que me amam…e tem aquelas onde o amor é mútuo. Tem aquelas que me odeiam e aquelas que me são indiferentes. Tem aquelas que sabem meus “segredos”, tem aquelas que têm medo de saber deles e tem aquelas que ficam melhor sem conhecê-los… Tem aquelas que são minhas melhores amigas, aqueles que são meus irmãos de alma. Tem aquelas pra quem peço abraços, tem aquelas que não valem a pena pedir, tem aquelas que me abraçam sem que precise que eu peça.

Tem aquelas que baixam o nível de conversa muito rápido, tem as mais sérias (não contive o riso nessa)… Tem aquelas com quem “perco” horas conversando, tem aquelas com quem nem arrisco começar um diálogo. Tem aquelas que me divertem com a cretinice de cada dia. Tem aquelas que são as mais importantes, tem aquelas que são essenciais, tem aquelas que fazem eu me sentir viva, especial, única… e tem aquelas que me fazem sentir mal, mas não por muito tempo, sei que minha vida não vai mudar se elas não estiverem perto de mim… não, mudará pra melhor.

Tenho meus ursos, tenho meus companheiros de ciladas, meus amados, meu amor… Tenho uma vida quase completa, tenho minhas ambições e ninguém vai ficar no meu caminho (se existir um ‘alguém’, esse alguém será eu mesma), tenho metas e projetos, tenho sonhos e pesadelos…

Tenho uma vida egoísta e arrogante para levar pra algum lugar, lugar este já trilhado.

Vontade

O tédio bate à minha porta, uma desesperadora batida sôfrega. Uma paixão adormecida que erroneamente despertou, o tédio volta com tudo e me derruba. Não quero fazer nada, mas quero fazer tudo, o tédio me ama e voltou pra mim. Eu apenas quero uma vida agitada, sem esse maldito me atazanando. Quero apenas… sei lá, alguma coisa… um chocolate é um coisa… vou comer um chocolate.

Revolução

Vire do avesso jogue pra cima pros lados pra baixo role e desenrole grite alto orgasmo sádico pular dançar verborragias tragos de amor e tesão sim ou não talvez jamais opções sadias de comer ou beber assistir sexo louco arte insana de defeitos e morte calma sangria de alma doce e febre que impulsona um corpo num abismo mental melancólico fugaz entorpecida dor calmante musical pintura circo de horrores a vida se transforma em morte seca e deformada que constitui o caos ordenado e progressista dando alimento aos incapazes e vadios malditos hipócritas.

Transparências

Uma sala quase vazia, paredes de vidro translúcido, por onde posso ver o céu azul e límpido em sua magnificência, e chão branco. Potes de tintas em um dos cantos da sala; sem portas, sem pincéis, sem jornais… apenas o chão branco, o vidro das paredes e meu corpo, nu, desprotegido, vulnerável…

Olho em volta, ninguém. Timidamente levanto-me, ficando em pé, protegendo meu corpo, inutilmente, do mal escondido atrás das paredes, protegendo-me da luz e da sutil deficiência do local. Caminho até as tintas, sento-me sobre minhas pernas e abro os potes que ainda não foram descobertos; são tantas cores, meus olhos brilham ao ver que a luz é bela.

Meu dedo curioso mergulha em um azul ciano feito céu matutino de um verão quente e animado. O dedo sai daquele mar e uma gota escorrega, danada, direto ao chão; assustada, eu, olho novamente pra saber se alguém viu este acidente… não, vazio! Minha alegria e certeza de que posso fazer o que quiser naquela sala, apenas, crescem.

Mergulho minha mão direita na tinta azul e a esquerda na tinta amarela, são tantas possibilidades… perco-me em decisões. Com as mãos coloridas levanto-me apoiada de leve nos potes para conseguir equilíbrio. Em pé, eu giro, giro e giro com o esterno aberto e as mãos por extremidades a fim de espalhar borrifos. A tinta das mãos começam a secar, mergulho-as novamente nas mesmas cores e corro pela sala, dando, saltos e giros para pegar uma área maior. Volto aos potes e mudo as cores, a direita está tomada por cinza e a esquerda por um roxo magnífico, molho a ponta dos meus cabelos de amarelo e giro, saio quase voando pela sala quadrada, meu rosto é chicoteado pelo cabelo umedecido. A sala vai ganhando mais manchas e pingos sobrepostos e montando uma vida. Conforme a tinta seca em meu corpo eu o trago mais tons, mais material e começo a molhar meus pés; ando, no começo, com receio de escorregar, mas ninguém vai ver… então giro e pulo e caio e rindo muito pego mais cores e danço em todos os níveis.

Molho meus dois pés em tintas distintas e em meia ponta, sorrateira, vou até as paredes, elas devem ser fortes, seguras, grossas… são! Corro até as tintas novamente e dessa vez meus cotovelos foram vitimados e minhas mãos se enchem e colorem meus joelhos e pernas por sua extensão e encosto-me na parede mais próxima e como se fosse no chão, eu deito e rolo deixando minhas marcas. Mais uma vez às tintas, agora pego o pote de tinta vermelha escarlate e derramo sobre meu peito, parece sangue vertendo de um machucado indolor e, não há sutura que cure essa gangrena; então vou ao meio da sala e giro descontroladamente respingando o sangue por todos os lados. Caio de tontura e fico no chão por breves segundos para assim voltar à minha alegria.

Numa aquarela surreal me perco, meu corpo é tomado pelas mais belas nuances de tinta líquida que escorre louca pelo meu mundo. Minhas mãos espalham o material numa fusão não natural. Essas cores brilham. Lá fora anoitece, o cheiro de tinta secando me atordoa e durmo cansada, ofegante. Um orgasmo cósmico, não sexual.

Dolce

Um frasco cor de rosa vazio, com letras vazadas num fundo opaco. A vaziedade do frasco indica que foi bem usado, parece novo, sem mais nenhuma gota.

Um cinzeiro repousa confiante ao lado daquele frasco, ao contrário deste, o cinzeiro está cheio; cinzas, bitucas e carteiras vazias de cigarro, fumados quase que ininterruptamente.

Um copo vazio, com marca de batom vermelho na borda e uma garrafa de uísque barato na mesa, junto com os outros dois objetos, formando uma composição delirantemente clichê e enfadonha.

Ela está sentada em uma poltrona de veludo verde, que à primeira vista é confortável. Veste um roupão verde com estampa de algo que parecem nuvens fofas e sôfregas de várias cores.

Cigarro em uma mão, a peruca de um louro alaranjado na outra… onde era para ter cabelo agora só havia um tecido fino e elástico para cobrir a pele queimada; via-se parte do acidente em sua testa, mas a peruca com franja enganava bem os desesperados que a procuravam.

Ela olhava o vazio daquela sala fedorenta, úmida e embolorada. Ela dá uma tragada no cigarro e solta devagar a fumaça, é quase sensual, apaga aquela bituca velha e acende mais um. Mais fumaça e descansa a benção no cinzeiro, aproveita esse tempo com um único intuito: encher o copo e beber de um gole só. A garganta arranha e reclama por um líquido melhor, mas se contenta com o que tem e se acalma novamente.

A campainha toca. Ela arruma a peruca de frente a um espelho, dá mais uma tragada no cigarro, deixa-o descansando. Levanta-se daquela poltrona e isso causa alvoroço na poeira nela instalada. A mulher tosse e retira o roupão, seu corpo era decadente.

Ela abre a porta, era um senhor. Beijando-o na boca ela o puxa pra dentro e o leva ao quarto. Seu cigarro queima solitário no cinzeiro…

Casinha Campestre

Sossego.

Silêncio.

Ar fresco.

Novidade.

Calmaria.

Madeira curtida. De uma casa gostosamente fresca e com piso vermelho, sem problemas de sociedade como atualmente é, cidade rural sem aquele cheiro de esgoto. Sem vizinhos. Sem danos… Paz.

Pássaros, é claro que precisaria de um banho de repelente, mas só a ideia de sair desse mundo de poeira e prédios, concreto quente, asfalto derretendo sob o sol, pessoas correndo para serem infelizes, não ter tempo, não ter vida, não ter motivação, não ter descanso, não ter mente livre… Só por isso já vale a pena. Ideias fluindo como água de rio, calmaria para produzir. Relaxar. 

Janela molhada pela chuva de um lugar diferente, chuva que molha a grama (e não sobre a rua asfáltica e “civilizada”) recém cortada trazendo um perfume que me faz viajar entre minhas memórias.

Esquilos correndo pelo tronco das árvores e que nos visitam querendo alguma noz nova… Deitar numa rede, ouvir o barulho da água de um riacho próximo, sinos dos ventos balançando embriagados pela gostosa dança de suspiros cósmicos.

Comida fresca, cultivada por mãos que cuidam, cozidas ou não, num fogão rústico à lenha, sabor de campo, sabor de infância, sabor que não volta.

Aura Grotesca

Sinto um peso em meu espírito, algo que me prende na terra e não me deixa voar. Algo que me machuca numa febre descontrolada e ansiolítica. Um choro baixo que me arrebenta as entranhas e dói como se mil facas me invadissem. 

Sangue, ela bebe-se dele. Ferroso, forte e forçado. Túmulo profundo onde caí há muito tempo, dor que cava mais fundo e um mausoléu que é construído sobre ruínas de carne fresca e fel amortecido de uma aura antiga e dolorosa.