Agouro

Meu ar, cadê meu ar? Não consigo respirar, estou sufocando. Não consigo ver…

Meus olhos estão cegos para algumas coisas, preciso de clareza, não a tenho.

Coisas erradas acontecendo, coisas que fogem dos meus planos, coisas que não acontecem. Pessoas que me mal-querem, pessoas desejando-me coisas ruins. Parece que o mal prevalece, esses desejos fortuitos de outrem que me obscurecem e enevoam minha mente aturdida com tantos outros causos;

O que o “mal” me significa? Pra mim, é o que não me faz sorrir, é o que não me faz bem, o que não me dá prazer. Pra você, o que é o mal? Não me interessa, essa é uma reflexão sua com sua alma e corpo. Não é esse o caso, o mal está em jogo de outras formas.

Sinto que pessoas que me são próximas estão atrapalhando meus planos, jogando-me agouros, pessoas em quem confio, pessoas que não sei quem são, apenas sinto que está acontecendo. Espero que isso seja paranoia, apenas. Não quero afastar ninguém de mim, mas não posso mais baixar a guarda. Não posso mais deixar com que humanos não permitam meu bem.

Apenas minha intuição me dizendo que essa pessoa me é próxima. Apenas sinto e desejo estar errada, apenas dessa vez. Só dessa vez.

Caos.

O choro que não se contém em seu vulcão seco, nem a lava se acalma em uma tsunami de cores e sabores de gozo. Eu quero vida, quero voos livres, pés descalços em gramas verdes e gélidas.

Um trabalho quase terminado e, então, minhas asas são cortadas, dilaceradas e queimadas para não crescerem novamente. Dói a alma, minha paz se consome nesse suicídio de partes… pequenas partes de mim que vão morrendo a cada trava. O cio do meu fluxo mental perde o tesão e se desconecta de feromônios necessários para a cópula.

Não quero conversar, não quero sua opinião, deixe meu ódio exalar esse enxofre que sinto em mim.

Um noite em que sangro em pensamentos. Uma noite na qual não dormirei em paz. Uma noite que tem mais um mês e meio. Uma noite nefasta e maldita. Uma noite quente onde pássaros cantam alegres à minha volta. Uma noite em que vou me perder…

Sentir, estrangular, gritar! Sangre, sangre!

ESCURO

Caminhar  l e n t a m e n t e  pela escuridão, não tocar nas pessoas e querer tocar e o corpo não querer e a mente não querer… gritar… não, formar um grito, um silêncio, um calor, um grito preso, sufocado.

Andar  l e n t a m e n t e  pela escuridão, já conseguir ver os corpos em movimento, os olhos já acostumaram com o breu daquela sala quente. Caminhar  l e n t a m e n t e , querendo correr, querendo andar mais rápido e o corpo travado num andar L E N T O , uma dor instigando a mente, o grito sendo formado, não conseguindo ser gritado.

Desejos vieram à mente, sonhos, desejos, desejos… ah

Desejos fáceis, impossíveis, desejos que há muito tempo já não os desejo mais. Desejos que… desejos de hoje, desejos de amanhã… um dia; não, impossível, o grito me consome novamente!

Exausta deito ao chão, meu corpo pesa, pesa demais, meus gritos me puxam pra terra, pra baixo, pra um abismo escuro! Meus desejos tentam me erguer, mas GRITO, GRITO… NÃO… ninguém me ouve, só eu… e eu, e eu sou quem? Alguém que… que não consegue gritar.

Sufocada e cega ergo-me.

Meu caminhar nunca mais será o mesmo, vi-me por dentro. Não sei se gostei disso. Fiz, finalmente posso gritar.

Um caminhar pesado e longo, rápido, uma escada sem fim era meu tormento. Ela finalmente me liberta e sinto o metal gelado sob meus pés nus, uma calçada de pedras e um ruela de asfalto, supostamente novo, me conduz… choro, choro muito, meus tormentos surgem, minhas lágrimas salgadas escorrem pelo meu rosto, não consigo secá-las. Desespero. Desespero. Então correndo, não sinto as pedras soltas da rua, meus pés não sentem o chão. Paro. Grito aquele grito engasgado há tempos, há eras… grito como se ninguém me ouvisse, grito pra mim, pro mundo.

Silêncio.

Não sei pra onde vou.

Não sinto nada.

Não quero nada.

Eu quero tudo.

As lágrimas continuam… finalmente posso secá-las. Não molham minhas mãos, não as sinto. Não me sinto. Sinto-me mais viva, mais leve, mais contraditória… mais morta, mais eu, mais ninguém.

Recado

Sentada no chão da sala enquanto comia alfajores, surge um gato. Ele acaricia as costas dela. Vira-se para ver quem era a belezinha; um gatinho de pelagem preta e branca, em harmonia deliciosa. Em sua boca, ele trazia um pedaço de pergaminho envelhecido pelo tempo. Ela, sem dúvidas, retira-o da boca do bichano, então ele se espreguiça gostosamente, a jovem lê o conteúdo do bilhetinho mordido:

 “olhe para cima”

 Ela ergue a cabeça e vê o conteúdo indireto do bilhete. Do teto pinga sangue fresco, a frase “Amo-te” brilhava. Ela deita no chão e o gato deita ao lado dela, assim aproveita e acaricia os pelos, o gato levanta-se, espreguiça-se novamente e deita em sua barriga, uma gota de sangue cai em seus lábios, fechando os olhos ela passa a língua e dentes consumindo com voracidade aquele líquido viscoso. Algum tempo se passa e ela ainda observando o desenho daquelas letras tão bem dispostas no teto da sala de sua casa. Sentindo um aperto no peito coloca sua mão para arrancar seu coração que tanto doía, mas ela sente apenas uma cicatriz de 14 pontos bem vívidos e sente-se aliviada vendo o sangue que havia escorrido do corte e colorindo seu vestido de vermelho.

 Um cheiro inebriante perfuma o aposento, ela fecha os olhos sentindo os pelos macios do gato em seus dedos finos e alongados, dedos que pareciam serpentes. A jovem sabia de onde vinha o perfume, sabia quem estava ali por perto. Então ele aparece, sorrindo e com as mãos ensanguentadas, com um pedaço daquele coração. O gato ronrona e se aquieta quando aquele anjo sombrio senta-se ao lado dela. A jovem abre os olhos e o vê e o sente afagando-lhe os cabelos e tingindo-os com o que restava da tinta usada na obra feita por aquelas mãos compridas e dedos gentis de artista.

 Senta-se sobre as pernas e oferece um beijo ao mancebo que chegara. Ambos sentem o gosto do sangue que havia estado nos lábios da donzela, então ele oferece aquele pedaço vivo e pulsante, de onde proveio a tinta, e então, os dois devoram sadicamente o coração da moça.