Porto Seguro

Preciso de um abraço apertado, um beijo suave, encostar minha cabeça em seu peito e ouvir seu coração bater. Não quero permitir que meus problemas sejam maiores que minhas satisfações. Quero que todos ao meu redor não sintam minha aura pesada, quero que continuem sentindo-se bem ao estarem comigo.

Não posso transparecer fragilidade, cansei de chorar e demonstrar fraqueza; quero dividir minha felicidade, meus sorrisos e amáveis pequenas coisas de amor. Não quero mais falar de trevas e sangue (ok, isso ainda quero, ainda gosto e preciso, não posso fugir de mim), mas não quero mostrar a minha dor. Preciso gostar do que transpareço, sentir meus prazeres ao escrever e gozar a “macabriedade” de minha vida fúnebre.

Quero amar em mortalha de seda brilhosa, esperar toda manhã pelo meu Sol me acordando gentilmente, quente e luminoso, contente e satisfeito com o turno Lunar.

Durma, criança!

As pessoas que moravam pelas redondezas daquele cemitério só de lápides já estavam há 3 dias ouvindo gritos vindos das profundezas fétidas da morte. Três dias enlouquecedores de gritos, choros e gemidos. Passava-se o 3º e um dos moradores, já insano de tanta dor audível, ligara pra polícia.

Vasculharam o cemitério em busca de alguma piadinha de mal gosto, mas foram chegando mais perto do túmulo de onde pareciam vir as súplicas e elas cessaram. A cova foi aberta e o caixão retirado. Os policiais abriram o caixão, um caixão preto envernizado e com rosas vermelhas e brancas salpicadas por cima, as rosas tombaram no chão enquanto ele era aberto por mãos ágeis. Um dos policiais tapou suas narinas, o cheiro era de carne que começava a apodrecer. Dentro, o caixão era forrado com veludo verde e seda prateada, rendas estavam amarrotadas sob os pés daquela jovem senhora, o rosto dela estava contorcido, a língua pra fora, os olhos saltados pra fora das órbitas, a pele beirando a cor azul, já mostrava as veias clareando e quase estouravam.

Os policias ficaram chocados com aquela visão, vasculharam o corpo, mexendo com cuidado. Um gemidinho foi solto e eles ficaram apavorados, um deles chegou a vomitar e desmaiar, ao levantarem a saia de mortalha da senhora eles veem um feto embebido em sangue e placenta. Chamaram pelo IML, mas era tarde, o feto estava morrendo, eles davam a pseudo-idade de 6 meses, nascera prematuro e pelo visto contra a vontade do pai. Aquela senhora havia sido assassinada pelo marido e fora enterrada há 4 dias. Enterrada sem autópsia e envenenada com remédio para dormir. O IML chega e o bebê que estava se formando não aguentara.

Analisando os fatos, percebem que a senhora fora enterrada viva e era ela quem gritava durante os últimos 3 dias, seu bebe nascera do desespero de ela estar morrendo sem poder salvá-lo.

Revistando o caixão pela última vez eles percebem rasgos no veludo almofadado e arranhões na tampa. Sobe um arrepio pela coluna de cada um dos presentes.

Delírio notívago

Uma sala escura, iluminada, apenas, pela luz da lua cheia quase amarela que brilha num céu limpo de nuvens. Vê-se uma mesa e duas cadeiras, supostamente de madeira envelhecida. Uma toalha estendida e um castiçal para uma só vela. Ninguém na sala, a janela fechada sem deixar o ar frio da madrugada penetrar no aposento. A cortina de renda já muito puída balança de leve, como o vestido de uma dançarina. A vela se acende, tomba pra o lado e põe fogo naquela toalhinha, aos poucos a casa vai sendo lambida pelas chamas e no andar de cima ouve-se um grito desesperado, um grito novo, uma alma perdida.

Id.

Estou egoísta, sou egoísta… fiquei arrogante, sou feita de pedra, de alma, de mimEu, eu, eu, vocês me amam, entendem-me. Você, minha novidade, é o meu mundo… possessividade não, apenas eu, meu ego que é auto-destrutivo e está gritando por mim. Quero me superar, superar outros para eu ser a melhor. Preciso ficar sozinha, isso me ajuda. Eu tenho que me sentir bem, assim poderei fazer bem aos que me acompanham.