Sobre-ego

As palavras me deixam, já não servem mais pra nada, escorrem pelos meus olhos e me emudecem. Preciso delas, por você, pra você… Voltem. Não, não voltem, não as quero, vocês só me servem para lágrimas e não sorrisos…

Assim posso me desfazer de vocês, não me venham em textos e poemas, venham em gestos que acariciarão a alma de quem as ouve.

Apareçam em meus gritos de horror, nas minhas ausências. Só lá eu quero todas vocês, agonizando quem vos lê, sangrando os corpos já descarnados e podres de quem foi criado só para aquele momento e além.

Não se esvaziem por completo, continuem comigo, mas em minha ausência, apenas se joguem e se organizem em lindos versos de pavor e doçura suplicante de perdão e clemência.

Frenesi

Um arrepio percorreu minha espinha, minhas pernas amoleceram até meus joelhos cederem e eu cair no chão duro daquele soalho de madeira velha, minha queda fez o chão ranger. Permaneci ali e aquela mão gelada e de dedos longos e cheios de nós nas juntas passou pelo meu pescoço e correu pelo meu ombro. Eu sabia que não tinha mais ninguém em casa então não tive coragem de virar para trás.

Aquilo sussurrou um “você está certa” e então não o senti mais, assim que meu cérebro conseguiu processar tudo isso eu virei meu pescoço para ver se aquilo ainda estava no quarto; como eu sabia, ele não estava mais, nunca estivera ali, meu gato estava arrepiado e rosnando feito um louco, cuspia e mostrava as unhas pra mim, parecia que a qualquer momento ele ia me atacar. Então levantei finalmente e tentei me aproximar do Freddy, meu gato, e ele apenas rosnava mais e mais, resolvi descer para saber se ainda tinha sinais daquilo.

Fui na sala e minha pressão baixou, por pouco não desmaiei, apoiada no corrimão da escada do meu sobrado sentei em um dos degraus e fiquei ali até meu sangue voltar a circular pelo meu corpo. fechei meus olhos.

Um vulto passou, fez sombra. Não vou abrir meus olhos – pensei.

Vou ficar aqui de olhos fechados até tudo isso passar. Meus pés se moviam, algo fazia com que eles me levassem de novo pro meu quarto, ouvi latidos do cachorro do meu vizinho, eu não abri meus olhos, apenas dei um suspiro e deixei meu corpo ser levado. Entrei no meu quarto, parecia que meus pés nem tocavam o chão, acho que não tocavam mesmo. Não me sentia leve nem pesada, apenas sabia que aquilo devia acontecer.

Sentei na minha cama, senti algo enrodilhando-se no meu pescoço. Um apertão me fez querer gritar, mas já não conseguia fazer nada. Subi em minha cama, fui erguida e só senti meus pés se chacoalhando e eu queria gritar, mas estava sufocada, minha cama já não me servia de base e eu estava pendurada. Abri meus olhos, nada no meu quarto, mas eu sentia uma presença, só que não tinha coragem de aparecer pra mim. Foram 10 minutos de agonia e finalmente vi aquilo e ele disse “finalmente você é minha”.

Terror Motivacional

O terror me encanta, sangue escorrendo pela parede parece vinho que vaza de um tonel antigo de carvalho. Pele rasgada, órgãos decompondo-se pendurados por pregos enferrujados. A agonia de alguém estar sendo seguido por nada nem ninguém ou a noite deixando mais audíveis os gritos de uma pessoa que está presa em algum porão e sendo carinhosamente torturada por uma mente deliciosamente sádica. E os uivos de mil lobos, o gorjear de um belo corvo. O vento que farfalha as folhas macias de uma árvore seca. A sensação de desespero surgindo de suas entranhas, o ardor de um machucado, a saúde deteriorada de um quase morto que luta com o sobrenatural e o impossível.

Sim, tudo isso me encanta, traz uma super-realidade fantástica à minha imaginação já meio conturbada por demônios e anjos. Meus personagens são assim, um surreal que voa longe, que vem me encontrar em sonhos ou nos meus melhores pesadelos. Com a escrita eu os liberto e eles podem sentir o vento frio lhe cortando o rosto e balançando seus cabelos.

Justo

Imagem

Morram todos que não gostam de arte.

Se não gostam de arte parem de ouvir música, não vão mais ao cinema, parem de assistir novelas ou qualquer coisa que passe na TV. Não ponham suas filhas nas aulinhas de Ballet, Não deixem seus filhos brincarem de carrinho ou casinha, eles estão fazendo teatro. PAREM DE ESTIMULAR A CRIATIVIDADE DOS SEUS FILHOS, não comprem giz de cera para eles pintarem desenhos loucos que imaginam ou que viram em algum lugar. Se não gostam de arte não deixem seus filhos fazerem uma faculdade de artes, mas também pare de fazer da arte seu lazer, deixe seu mundinho escroto vazio.

Se não quer fazer isso, então nos deixe fazer do mundo uma coisa mais bonita, mais cheia de vida, de cores, de amores.

Artistas sempre irão existir, querendo você ou não, dando apoio ou não. Eu sou artista, um projeto de artista na verdade, foda-se… essa é a vida que EU escolhi; quero atuar, dançar, desenhar, escrever. AMO FAZER ISSO, não vejo vida sem arte. Eu apenas existiria, faria peso no mundo. Preciso da liberdade de um pincel numa tela ou pés descalços dançando na chuva, um lápis desenhando letras e formando palavras e frases e textos e desenhos…

Quero viver a arte, quero me fazer ‘arte’

Sui Caedere

Ceder à vida, não mais. Não quero amores de verão, nem cuidar do que não me pertence, quero apenas apodrecer como manda a natureza, apenas me livrar do que me faz mal, seguir o fluxo dessas bandeiras levantadas em hastes duras de aço semi-corroído. Provar de licores que me deixarão como a pessoa mais ébria de uma taverna nojenta e infestada de pragas e prostitutas malditas e doentias.

Quero apenas o barqueiro, venha me buscar, tomara que não esqueçam as moedas, vou virar cinzas e então o barqueiro virá. Logo, apresse-se, não aguento essas pessoas de alma sarnenta nem esse mundo podre já há tanto tempo.

Adeus, esse é meu último cântico.

Não consigo achar nada para cantar, mereço ir embora logo e vocês, não sintam saudades. Não quero ficar perambulando pela mente de vocês. Não ousem a entoar meu nome.

Evolar

A cada momento uma enchurrada de palavras vem à minha mente, perco-me entre elas e todas evaporam como água numa roupa pendurada para secar em algum varal. Quero pô-las em ordem, mas correm traquinas por cantos obscuros e que não alcanço. Apenas queria registrar sentimentos através delas, mas se recusam a vir de bom grado, preciso que elas adormeçam para, dai si, poder usá-las… Não, dessa vez não. Agora quero dominá-las ainda acordadas, vivas, pulsantes, não posso mais esperar o sono de mais nenhuma delas, nem a morte de qualquer uma que seja.