Mais Passarinhos Voando.

      Um ataque cardíaco foi o motivo da última leveza na minha família. Meu avô, finalmente, descansou. Não vai mais precisar ouvir ninguém gritando nos ouvidos dele o que ele deve fazer nem como. Nossa Amiga foi piedosa e o aceitou dessa vez. Apesar de eu não ter vindo aqui pra falar dele e essa ter sido apenas uma apresentação do novo escrito é importante ressaltar: mais um passarinho voou e, eles fazem isso.

      Descobri que a minha maneira de lidar com essa passagem é me isolando ou, estar com pessoas que me fazem bem. Nada de ficar velando corpo, olhando algo que já começa a apodrecer e está maquiado o suficiente pra não causar repulsa nos visitantes. É só um corpo, morto, já passado e engomado pela Vida. E esse dia chega pra todos. Então por que ser forçado a ficar olhando um corpo morto dentro de um caixão com flores que também irão morrer enquanto parentes vem te cumprimentar com pena e aquele maldito olhar de “coitadinha dela”.

     Aproveitei meus momentos com os meus passarinhos, é claro que todo dia que penso neles, acredito que eu poderia ter feito muito mais coisas com eles, falado mais coisas, passado mais tempo com eles. Eu acreditava (e ainda acredito) que quem amamos são imortais, não o corpo, mas os momentos que passamos, as lembranças e todas as memórias sensoriais quer teremos ao longo da nossa Vida. Então por que passar esses momentos “finais” sabendo quão finitos somos e como faremos sofrer as pessoas que amamos e que nos amam? Por que passar por esse ritual doloroso dessa despedida sádica que a família nos força? Esse momento deveria ser aproveitado como somos e como achamos mais apropriado, não sendo obrigada a velar e ir na procissão da sala funerária ao mausoléu. Eu me sinto mais conectada com os passarinhos fazendo coisas que me deixam bem, pois conhecia eles o suficiente pra não quererem me ver chorando diante do corpo gélido deles.

      Meu primeiro passarinho foi minha vó, passei assistindo um filme maravilhoso que me ajudou nesse processo, enquanto isso passei conversando com um grande amigo, que inclusive foi quem me indicou esse filme. Foi a minha pior madrugada até aquele momento, mas mesmo assim foi minha, eu precisava passar daquela forma.

     Meu segundo passarinho foi meu pai, foi o pior dia da minha vida. Foi o dia em que mais chorei (e acredito que nunca mais conseguirei sentir tanto por uma perda), passei um tempo na sala funerária e, não aguentando, não acreditando que aquele seria meu último momento vendo o corpo físico dele, eu saí. Fiquei sentada no banco na frente da capela. Eu estava com um amigo, aquele mesmo (sério, obrigada mesmo. Você sabe quem é, se estiver lendo isso, por favor acredite que foi e ainda é muito importante pra mim). E eu sei que meu pai não iria quer me ver mal. Inclusive, lembro que ele sempre fazia brincadeiras sobre o assunto quando íamos visitar o pessoal no dia de finados. E eu sei que, pra mim, ele é um eterno. Tivemos nossos problemas, claro, mas era pra cama dele que eu ia quando chegava da faculdade, era com ele que eu conversava quando queria contar algo, nem que fosse um plot twist do livro que estava lendo no momento (ele me aguentou contando O Senhor dos Anéis).

    O terceiro foi meu vô, pai do meu pai, não éramos muito próximos, mas vem novamente aquilo das pessoas com pena: “coitadinha, perdeu o pai ano passado e agora o avô”, eu nem conhecia a pessoa que me disse isso. É por isso que quero que essa passagem seja só minha, ninguém é empático o suficiente pra saber o que cada um passa no luto de alguém.

     Hoje foi meu outro vô, o vô com o qual compartilhávamos terreno, então o contato era mais próximo. Passávamos horas conversando quando eu não estava correndo pra ir trabalhar ou ir pra aula. A pessoa que sabia que eu não estava reclamando à toa, a pessoa que sempre estava ali comigo se eu precisasse. Ele e meu primeiro passarinho.

    E agora estou sozinha, tendo que ir velar material orgânico e passar por todos os caminhos das lembranças ao receber abraços de pessoas que não me conhecem.

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Baseado em Fatos Oníricos

Quero ser livre, sei que ainda não sou e, também, sei que talvez eu nunca seja; pelo menos não em vida, nessa vida decadente e deteriorante. Livre como em sonhos, onde você pode fazer tudo e ainda continuar indo pro próximo.

Um dia serei livre, caminhando de braços abertos esperando o que a vida me der, recebendo na pele o calor dos raios de sol de uma tarde de terça-feira.

Um dia

        Quando você é criança te perguntam o que quer ser quando crescer e então tua mente fervilha de possibilidades, uma parece ser mais excitante que a outra, você se empolga quer fazer de tudo. Então você cresce e vira um poço de fracassos. Um nada, indo pra lugar nenhum, com ninguém.

Histórico Escolar

Eis que você, está com seus 5 anos e quer ser veterinária porque lembra que anos atrás sua galinha morreu e sabia que podia fazer com que ela continuasse viva, mas acabaram fazendo uma galinhada com as outras do galinheiro. Então, você percebe que sabe lidar com a morte melhor do que os “adultos” achavam que você lidaria, afinal ela é uma nova amiga… E eram só galinhas de acordo com eles, e isso de morte e essa coisa toda não permanece na memória infantil (ou foi moldada), mas nada pra se preocupar.

Aprendeu a desenhar as letras no papel com o pai incentivando ao presentear com lápis de cor e caderno sem pauta e com pauta pra caligrafia, mas gostava mesmo era de redesenhar personagens dos desenhos que assistia.

Acordava cedo, assistia desenho enrolada num cobertor, na época, novo e comia seu mingau antes de ir pro balé. Balé sim, porque balé é pra menina, nada de fazer judô porque é muito violento e é pra meninos. E no balé tinha que usar roupa rosa e nunca gostou de rosa, pediu collant preto, sapatilhas pretas, faixa preta, mas não de judô, essa era pra cabeça mesmo, pro cabelo comprido de menina não cair nos olhos e atrapalhar um giro. Mas fazia balé porque era bom pra coluna cifosica que o doutor detectou. Até que gostava. Até que chegou no limite da repetição sem sentido matadora do tempo de crianças ociosas.

Aos 8 você gosta de brincar de escolinha e chama teus amigos, mas você gosta de ser a aluna, já sabe que não teria paciência pra lecionar (e nem sabe o que poderia). De repente vai pra casinha e senta na cama de uma boneca, sozinha porque se esgotou do contato com outras crianças e se sente mal por ter tantos amigos e não conseguir aproveitar a presença deles, eles se preocupam contigo e vão brincar de casinha também e te preparam biscoitinhos de terra com rabo de gato e sentam a sua volta e, ainda preocupados, contam histórias, piadas, coisas que aconteceram, coisas que não sabemos se aconteceu mesmo… E anoitece e você acaba querendo jogar bola com eles na rua, felizmente a rua era tranquila, e esses amigos eram seus vizinhos então estava tudo certo pra um “três cortes” ou caçador… Até às 22h, eram férias da escola e na manhã seguinte acordava cedo e ia chamar os mesmos amigos ou era chamada pra ir brincar. Férias, bons tempos.

Na aula, um aluno pergunta pra professora porque a lua muda e a explicação não convence, então passa dias na biblioteca pesquisando pra se responder porque também ficou curiosa, e passa mais algumas semanas lendo sobre astros e sistemas solares e, meu deus, como nebulosas são lindas e um novo amor surge.

Perto dos 10 anos quis ser cientista, descobriu isso verbalizando pra uma amiga enquanto brincavam de barbie porque sozinha fazia experiências com elas, mas a amiga disse que cientistas não acreditam em deus e, naquela época você ia pra catequese e achava que essa era uma das verdades da vida: deus existe e é o ser supremo de amor e da piedade e a família católica ajudava nisso. Incentivava. E então a ciência foi deixada de lado e não se sabe mais o rumo de nada. Mas já sabia que não queria filhos também, mas o que uma criança que não tem nem uma dezena de anos sabe o que quer? “você vai crescer e vai mudar de opinião e vai me dar netos e casar com um rapaz bom”. O que uma criança com nem uma dezena de anos pensa sobre isso?
– Oxe, eu tô errada então? Eu preciso casar e ter filhos pra ser feliz?
Nem uma dezena e olha só o que a leitura faz com a criança… Tsc tsc

Aos 10 pede ao pai um caderno sem pauta e giz de cera, ganha uma maleta com vários lápis, giz, canetinhas, tintas… E começa um portfólio de desenhos; mas não cria, só reproduz, mas reproduz com êxito. Sente-se mal por não saber criar. Desenhista de verdade cria. Para.

Na escola, finalmente, começou a ter aula no laboratório de ciências. Ciências era a matéria favorita, mas a professora implica com muitas coisas, principalmente em não mexer nos vidros de química. O que é química e porque não pode mexer se vai ter cuidado pra não quebrar nada e nem abrir os potes de água colorida? A professora não explica. Então seu pai, novamente, presenteia com paixões, ele te conhecia. Coleção da Barsa e atlas completo. Diversão garantida.

O recreio deixa tudo muito barulhento lá fora. Dentro da biblioteca era mágico, silencioso e tinha tantos livros que pareciam tão bons, mas que jamais conseguiria ler todos, apesar de querer tentar. Vagando entre uma estante e outra vê-se na frente de uma pequena e fina coleção de livros de mistérios e conhece o Sr Holmes e o Dr Watson, coração dispara e a cada página lida sentada no chão do corredor dos livros policiais encontra o primeiro amor literário e o ajuda a resolver os crimes e se sente bem quando ele fala que estava certa e se presenteia pegando o próximo da série. Anos depois rele, mas divide a paixão com um amigo, emprestam os livros e trocam durante a semana. Português é uma forte candidata a ser a favorita e, então, ciências se divide. E lembra os pokemon iniciais, sabe quando precisa escolher um? Não precisou, aconteceu, a preferência ficou clara, mas ainda não havia encaixe. Aos 14, pensando em tantas possibilidades, tantas coisas pra aprender e descobriu que tinha que escolher logo porque o vestibular tava batendo à porta.

Quem aos 17 anos sabe o que quer da vida? Porcentagem baixa, quase inexistente. E quem sabe, sabe se vai ficar nessa área pra sempre? É muita pressão, pressa, responsabilidade demais pra alguém que deveria estar atualizando lista de animes pra assistir. Crise, depressão, reprovação no histórico. Como aceitar que era uma boa aluna se reprovou de ano? Vestibular está chegando, escolha, precisa ser alguém na vida, escolha o que você gosta, desde que seja medicina ou direito. É tudo pelo seu bem, diziam. Escolheu pela arte, por algum motivo, por algum chamado, por alguma brincadeira, por algum tipo de sorte…

GRR2010 anos dourados. Escolha certa pro momento. Muito recente, muito apego, poucas palavras, ainda vivo. Ainda sinto que que estou no caminho. Só peguei um desvio para procurar algum hotel e me instalar por um tempo até acalmar algumas coisas no interior. Fico na cidade grande, ainda com dúvidas e medos, mas com uma cama pra deitar no final do dia e um pão com manteiga de café da manhã.

Altruísmo Antagônico

     Esgota-me pensar que seres humanos não foram feitos para nada além do egoísmo, não pensa-se em fazer o bem porque é instintivo, não é natural pensar no outro antes de si mesmo, proteção é mais um conceito de possessividade – nada altruísta. Pensa-se em fazer o bem ao outro por puro egoísmo, para sentir-se bem consigo mesmo. Um protagonismo desesperador e urgente por visibilidade. A ‘antagonia’ sôfrega e cansada de sentir-se bem com o mundo. Nada é instinto, apenas um sistema que é nada  além da auto-proteção ou da auto-piedade.

Pinot

      Claramente estou nervosa e, olha que, não será o nosso primeiro encontro, mas dessa vez, sei lá, parece diferente; ele me chamou pra ir jantar na casa dele… Ele ia fazer o jantar. Penso em levar vinho, mas ele não quis me falar o que vai preparar, não sei qual vinho levar. Deus, o mundo sofrendo com a fome e a guerra e eu aqui paranoica por possivelmente errar na harmonização entre comida e bebida. Respira fundo. Esquece o vinho, foca em não chegar lá e parecer uma imbecil ao ver o sorriso dele, foca em não gaguejar quando ele falar oi (com aquela voz de seda, quente e macia e… Foco…), a gente se conhece a milênios por que ele ainda tem esse efeito sobre mim? Meu Deus, ele vai me abraçar… Calma, fazemos isso sempre, por que agora seria diferente ou especial? Sempre é especial. Os braços dele não mudaram, talvez estejamos no nível de abraços mais apertados e demorados. Não, isso é loucura, não existe nível coisa alguma, abraço é abraço e ponto. Não pira!
Respira fundo.