Asfixo

Como se uma bala de menta percorresse minhas entranhas e se instalasse, que por um átimo, em minha alma, apenas me tomaria à solta um leve rememorar dos teus doces toques.

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Média Tarde

Ai de mim que sofro pela carne trêmula e quente de um vazio amargo palpitativo ao peito e engolidor de entranhas. Ai de mim que observo o cerco causado e concreto do vento que alumia as incertezas de uma forma mais lúdica. Ai de mim que calo sob angústias. Ai de mim que sangro cortes profundos anunciados na sede de saliva doce. Ai de mim que em noites sombrias me perco em leituras e vales escondidos. Ai de mim.

Desenho Concerto

Meu corpo está agitado. Ele lateja e palpita, a mente acompanha essa viagem de símbolos. É normal agora sim, mas não para o meu. O teu toque me arrepiou e ainda penso nessa reação refletida há dias e gravada em memória afetiva.

É sobre flores mortas atentas ao mundo, sobre chá e música, livros, história. Uma boa noite e um passo a mais que não me permiti. A primeira vez. Meu estômago aperta nessa ansiedade de saber que talvez não te veja mais.

Voo longe pensando em nosso beijo e talvez ele nem tenha existido, já não sei mais, apesar de confessar querer essa realidade, pois meus lábios formigam com a sensação dos teus os tocando.

Aquele do passo pros trinta

    O mês do meu aniversário passou a ser um período bem angustiante. Muitos aniversários bons, mas também como num inferno astral, que não acredito que exista, têm os momentos ruins. Aquele dos seis anos, por exemplo; e não sei bem se os bons compensam. Às vezes me pego planejando meu ano, meu futuro, outras penso no fim. Mas não acaba, nunca. Parece uma tormenta que vem chacoalhar tudo e me desesperançar muito mais. Então eu respiro fundo, encho meus pulmões até doerem e solto fragmentos segurando um choro que viria frenético.

    Estou chegando aos trinta, e não quero. Não queria, pelo menos não queria estar como estou. Pensei que seria tudo tão diferente. Sinto-me um fracasso, uma fraude. Não sou nada, mas já tenho os malditos quase trinta.

   Eu não deveria estar me sentindo pesada, mas estou. É um peso que eu jamais pensei que carregaria, sempre pareci tão segura quanto meus projetos, mas sou feita de falhas e muitas delas. Quero mudanças, mas com elas o medo precede e não sei se sou capaz de aguentar. Tudo o que me cerca está afundado em merda, daquelas bem fedorentas e viscosas e grudenta o suficiente pra me afundar mais.

    Inevitável, então haverá festa, terá um bolo, doces e até talvez alguns bons amigos. Vou tentar parecer agradecida, mas no fundo eu sei de coisas que prefiro não saber. Então será assim, mais uma fraude. Mais uma falha. Sem saída.

Frederico

Deus nos abandonou. Se ele existe ele não se importa conosco tanto quando vocês nos fizeram acreditar. Vocês usam o livre arbítrio pra defendê-lo, mas ele não existe, ou já morreu e sua carcaça tá fedendo no cosmos. Ele não se importa com o que supostamente criou, foi só uma criança pegando o balde de brinquedos, despejando no chão, brincando até se fartar e logo após a mãe chamar pro jantar largar tudo para que alguém ache uma peça de lego com o pé desavisado. Ele não existe, ou se existir é cego e surdo e não consegue saber que tem pessoas implorando ajuda, implorando salvação. Ele não existe ou é um grande babaca, um tirano que expulsou seu melhor anjo, aquele que não concordava com seus absurdos. Talvez eu acredite mais nisso, se ele existir então ele é um grandissíssimo babaca. Talvez ele esteja assistindo toda a barbárie da varanda de casa, tomando uma água de coco e rindo do caos. Talvez essa seja a melhor TV a cabo dele. É o filme distópico, a novela do vale a pena ver de novo que fez sucesso décadas atrás.

Se ele existisse, podia acabar rápido com tudo isso, dizem que já havia feito isso, a arca podia voltar, salvar um casal de cada espécie (menos a humana, convenhamos). Se ele existisse e fosse o que todos pregam sobre bondade e o caralho, ele acabaria logo com isso. Deixar em banho-maria é crueldade e não retiro o que sou sobre o time que apoio.