Dia 173, quarentena. Curitiba

Eu realmente não quero estar do lado de quem está rindo. Sim, queria que fosse tudo diferente, mas não é. Nós que lutemos.

Feriadão em plena pandemia, praias lotadas e até ouvi um burburinho alegando que “a pessoa é obrigada a trabalhar durante a pandemia, acreditem, não haverá nada que possa dissuadi-la de aproveitar um final de semana na praia depois de trabalhar durante a semana inteira”, pois bem, tem sim: noção, empatia, cuidado com a saúde dos outros, bom senso, ixi… São tantas coisas! Primeiro que se está trabalhando é porque foi obrigada por quem detém os meios de produção e não quer se permitir deixar de ter lucro, afinal se funcionários morrerem contrata outros. Sabe aquele meme do “amigos? Troco por outros”? Então, segue a mesma lógica, só que o meme é engraçado ha-ha vamos supor que ainda conseguimos rir. Retomando, praias cheias porque tivemos feriadão? Acredito que isso só agravou a decisão (porque ir à praia é decisão, não é o emprego do qual o funcionário depende pra conseguir comprar a comida do mês ou pagar aluguel e também acredito que quem foi à praia são as pessoas que não tem, de fato, essa preocupação), porque inclusive semana passada teve uma situação similar. E olha que falo apenas do RJ e apenas de notícias que foram divulgadas em relação a isso.

Agora o foco é Curitiba, a cidade onde moro. Curiticity como é conhecida por alguns por se acharem em alguma cidade europeia ou estadunidense (ou seja lá o que essas pessoas pensam sobre nomenclatura de cidades). Há dois finais de semana, aparentemente, estavam distribuíndo vacina no largo da ordem e no shopping hauer, teve muita gente lá comemorando que estava imunizada, sem máscara, rodeados de pessoas, bebendo, se pegando… Eu perdi a vacinação porque estava em casa cumprindo o isolamento que nem muitos otarios estão fazendo e acabamos todos perdendo a imunização. No final de semana seguinte, teve mais uma, mas também ficamos sabendo tarde demais, daí de repente já era feriado e não dava mais pra descer pro litoral, porque estaria rolando mais uma campanha por lá. Enfim, perdemos. Hoje, dia da suposta independência do BR, algumas criaturas resolveram sair das suas tocas e ir fazer manifestação na boca maldita com placas “não precisamos de vacina, temos cloroquina”, “chega de mortes, prefeito”, “tratamento precoce”, uns cinco gato pingado gritando e vociferando que não querem vacina. Pois bem, o nosso excrementissimo presidente já foi vanguarda e iniciou a campanha anti-vacina semana passada, “toma quem quer”.

Ainda estamos sem ministro da saúde, o interino preferiu dificultar aborto em caso de estupro [(ao invés de liberar tudo, porque sim sou à favor do aborto) malditos “pro-vida”] ao invés de fazer um programa/campanha contra o coronavirus. O país está ladeira abaixo. Mais de 127 mil mortes, mais de 4 milhões de infectados e ainda tem pessoas fazendo festinha com as bosta dos amigos e família.

O meio ambiente está indo para as cucuias. Amazônia pegando fogo, pantanal pegando fogo, animais morrendo, índios morrendo, genocídio de povos, culturas e biomas. Despejo do pessoal do MST, alta nos preços de produtos de mercado. É tanta desgraça que não consigo nem ter foco pra digitar isso. Dizem que a esperança é a última que morre né? Tão adiantando essa prova.

Olha, sinceramente? Falta aquela mutação pro vírus ser mais seletivo. Não tem setembro amarelo eficiente num governo desse. Espero voltar tanto quando espero ver vocês por aqui novamente. Vamos por nós porque estamos à nossa própria sorte. Usem máscara, só saiam se for necessário, cuidem-se. Ainda vamos nos encontrar e tomar um café pra chorar os traumas desse pandemônio do caralho.

Dia 150, quarentena. Curitiba

Balanço de uma semana tipicamente estressante no meio de uma pandemia, de uma crise sanitária, de uma crise econômica e de uma crise política no país onde moro. Isso tudo somado a uma TPM que me fez ficar chorando em posição fetal por alguns dias, em meio ao pânico de uma morte iminente, de ansiedade, uma possível depressão em desenvolvimento, uma xícara de síndrome do impostor, meia xícara de síndrome de Amelie Poulain e uma pitada de ódio por gente furando uma quarentena que não existe, assim estou sobrevivendo a esse período.

Fui agraciada com uma resposta a princípio positiva a respeito de uma bolsa de pesquisa, fui incentivada por um professor a retomar outra que comecei há mais de cinco anos e foi com essa questão que minha semana ficou tensa. No começo de agosto fiquei repensando se valia a pena retomar ou se deveria desistir de vez dela, fiz textão, chorei, fiquei com raiva, somei todo o desespero da pesquisa desde o início até o momento que pensei em rasgar tudo e jogar pro alto (metafórica ente, visto que foi tudo digitalizado num computador). Como se não bastasse todo o turbilhão veio a notícia da possível negação de aborto no caso da menina de DEZ ANOS que foi estuprada pelo tio desde os SEIS ANOS e que se viu grávida (não vou entrar muito na questão aqui, mas devemos lembrar que ela deveria estar brincando a essa altura, não sendo abusada de tantas formas – pelo parente, pela mídia, pelos cristão de bem… – foi o assunto mais comentado do dia, a criminosa Cura Inverno divulgou nome da criança e hospital onde ela faria/fez o procedimento do aborto enquanto cristãos enfurecidos com o “assassinato” de um punhado de células bradava que a menina era uma assassina por estar matando um ser inocente, mas estão bem quietinhos em relação ao estuprador que está foragido e provavelmente não dará em nada – espero estar muito enganada, porque não sei medir a dor dessa menina, mas em questão de abuso todas as mulheres têm lugar de fala e acabo falando por mim que gostaria de ver meus abusadores sendo esfolados vivos), mas minha pesquisa em termos é sobre violência contra a mulher e depois desse alerta me vi ainda mais impotente em escrever sobre, mas ao mesmo tempo percebi que as ocorrências de violência não vão parar só porque eu não estarei escrevendo, então decidi que vou escrever sobre, vou voltar à pesquisa, por mais que me machuque saber que tantas meninas/mulheres estão sendo abusadas e mortas vai me doer muito mais se eu descobrir que um texto podia ter dado voz a elas e não deu porque não foi publicado.

Hoje, domingo, tirei para refletir sobre metodologia e cuidar de cólica (e talvez fazer um bolo), mas amanhã retomo leituras e se eu não sucumbir voltarei com resumos.

Seguimos sem ministro da saúde, sem ministro da educação, estamos passando de 107 mil mortes por covid no brasil, bolsonaro não caiu, sua chapa não foi cassada ainda, a esquerda não se une, a cada dia estamos um passo mais perto do abismo, mas ainda a coragem de acabar com isso não aparece. Usem máscara, fiquem em casa se puderem, não façam festinhas por enquanto, vamos aguardar a vacina. DEFENDAM O SUS.

#forabolsonaro #fogonosracistas #nenhumaamenos #abortolegal #defendamosus #defendamauniversidadepublica

Dia 127, quarentena. Curitiba

Às vezes nós nos cansamos de estarmos cansados, levantamos e vamos olhar o céu ou fazer um bolo ou até mesmo sentamos em uma posição diferente para sentir um lixo diferente. Às vezes desejamos coisas que sabemos que não irão acontecer e algumas pessoas ainda nos dizem para sermos empático e não desejar o mal mesmo que seja a um ser que deseja e faz o mal aos outros “não vamos nos igualar” como se fosse comparável. Às vezes desistimos de desistir, em outras queremos desistir e não conseguimos, nos casos mais extremos conseguimos e não podemos mais discutir sobre nada porque já não estamos mais aqui. Ainda seguimos, cada um por si e deus contra todos.

Dia 117, quarentena. Curitiba

Hoje, finamente, consegui cortar as unhas dos meus pés. Parece besteira, mas estou há três semanas com uma dorzinha incomoda nas costas e estava me impossibilitando de fazer movimentos básicos. Hoje cortei, fiquei até emocionada. Vamos seguindo com dor, bem menos que antes, porém ainda sigo receosa de me mexer bruscamente, mas médicos já foram consultados… ✨ 💛

Gostaria de poder informar que estamos no próximo grupo pra tomar a vacina, mas ainda não foram aprovadas. Estão perto, mas ainda estão nas fases de segurança. Assim seguimos.

Estou fazendo vários pratos, caçando receitas, trocando com amigues, errando e ficando puta com o forno, mas seguimos.

Hoje bateu saudade da minha casa, do lugar mesmo, de onde eu estava morando até a quarentena começar e me prender onde estou (sim, eu sei que poderia ter voltado, que posso fisicamente ir de uma casa a outra, mas sou paranoica o suficiente pra não brincar com a sorte). Quero tirar pó dos meus livros, arejar meu guarda-roupas, rever meus utensílios de cozinha, falar com o meu pé de café e pedir desculpas por não tê-lo reenvazado no começo do ano, ver a cachorra da minha mãe (nesse caso é a Chiara mesmo 🙃 até porque da minha mãe é uma questão complicada e falo com ela toda semana). Sinto falta das aulas PRESENCIAIS, de poder passar a tarde na biblioteca ou fazendo café brincando de barista. Sinto falta dos meus amigos, de poder abraçá-los, de tomar café no Manifesto com eles, do empadão da mãe do Rafa.

Sinto falta de ter um presidente no país.

#forabolsonaro

Balanço

Percebo o quão difícil é expor amarras sociais sobre a nossa família. Estou há um mês tentando escrever uma carta sobre o sentimento e a vivência de ter estado presa por trinta anos em uma e não está saindo nada publicável. Hoje essas poucas linhas trarão, talvez, uma luz para o desenvolvimento de um texto maior, mais denso, melhor… Hoje deixo só a sombra de um desejo. Hoje me despeço acreditando que será melhor.

Dia 103, quarentena. Curitiba

Passei a última hora digitando um texto que acabou indo para a pasta de rascunhos, duas páginas de uma carta pra um algoz. Digitei, mas não é para ser publicada por enquanto. Hoje só aviso que estou aqui ainda. A dor diminuiu, mas são quase 5h e ainda não dormi. O receio sobre o futuro bate à porta. Notícias pipocam sem credibilidade. É a madrugada fria do último dia de junho. O sol está em câncer, mercúrio ainda está retrógrado e o bolsonaro não caiu ainda. Continuamos sem ministro da saúde. O cara que foi escolhido para ser ministro da educação tem plágio na dissertação, não defendeu a tese e mentiu sobre ter um pós-doc… Ele não será empossado, estamos no aguardo para saber quem vai ajudar o governo a destruir o que resta do Brasil e olha que nem vou citar o do meio ambiente! Entramos numa Frias maior ainda.

Espero, um dia, contar boas notícias.

#forabolsonaro

Dia 101, quarentena. Curitiba

Eu ia escrever no 100º dia, mas meu final de semana foi ficar de molho e quando tentei pegar o celular pra digitar ele caiu na minha cara e eu chorei em silêncio e aguardei. Pois bem, hoje já passou de 100 dias da quarentena que ainda não começou porque os governos não têm coragem para decretar o tal do lockdown. Os casos aqui na cidade quintuplicaram, as UTIs estão lotadas e a cada dia tem mais festas e pessoas querendo que o comércio abra logo, inclusive muitos estão reabrindo mesmo com bandeira laranja. Final de semana precisei ir numa clínica porque minha lombar estava insuportável, provavelmente seja o ciático dando as caras e me lembrando da merda do lugar onde trabalhei até 2019, estou livre de lá, mas as consequências ficaram e, indo à consulta, que foi o mais longe que fui desde que começou o meu isolamento, e ainda têm muitas pessoas usando máscara no queixo (algumas nem usam), ainda tem pessoas sofrendo com outras doenças e estão ao deus dará porque a covid está lotando tudo. Na sexta, no dia 99, eu cheguei em casa da clínica, com dor, sem respirar direito pro causa da máscara e fui tomar banho, chorei. Eu realmente pensei no sentido do “valer a pena fazer tudo isso”, por um momento eu desisti, ali, apoiada na parede para conseguir suportar a dor que estava sentido, não apenas a dor física que me afligiu esta semana, mas a dor da falta de esperança e o sentimento de que, mais cedo ou mais tarde, vamos acabar morrendo mesmo, de covid ou não. Sei que tem muitas outras pessoas passando por coisas muito piores, mas não quero castrar o meu sofrimento. Estou numa cidade onde não tem estrutura pra dar apoio aos cidadãos, com um prefeito ainda covarde, onde tem cidadãos que fazem manifestação pra reabrir academia em plena pandemia (a mais letal das últimas décadas), num país onde não há investimento na saúde, educação, onde negam a ciência, onde sucateiam as universidades públicas. Esse foi um momento no qual eu havia desistido. Acabei deitando e dormindo, melhorei, a esperança voltou, mas tá por um fio.

#pride #28dejunho #vidasnegrasimportam #vidasLGBTQIA+importam

#forabolsonaro