Opereta in C major

            Ao fundo um jazz soa melancólico. Na varanda sinto que não vale a pena mais. Ontem eu portando um tesão decidi que não quero mais te ver, não quero mais sentir você, decidi firme que a vida é muito mais que sofrer por quem deveria estar te fazendo bem. Hoje, na rádio, tocou uma música que me lembra você, eu ri dessa afronta da vida, mas estando eu já decidida apenas ri triste e não volto atrás. Decidi que não vale a inspiração.
           Eu ainda te amo, mas prefiro rir sozinha de um amor frouxo que nunca existiu. Ainda prefiro chorar sozinha um amor que nunca me magoou até porque nem sabia que existia. E até há pouco tempo nem eu tinha essa noção. Decidi hoje, por tanto, que te amo, mas não vale a pena manter vivo algo que nunca nasceu.

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Exercício Cínico

Fui criada nas artes da encenação, então vamos brincar um pouco. Esse exercício consiste em:
Ser feliz

Seja feliz, é isso. Traga ao seu dia palavras positivas, atitudes altruístas, coloque a mão na consciência para ver se vale a pena a treta, evite fazer comentários que possam afetar a energia do local onde está, principalmente se estiver onde mais da metade (senão todas) das pessoas estão extremamente estressadas, depressivas, em pânico, angustiadas, ansiosas e tantas outras coisas que não são vistas por quem não está interagindo pois estão ocupadas demais pensando em como afetar diretamente a vida das pessoas que estão extremamente estressadas, depressivas, em pânico, angustiadas, ansiosas; porque essas vidas são caras demais para que não causem preocupações.

Então rebata negatividade com positividade e assim você descobre o segredo da vida eterna e da felicidade extrema. Porque nada é mais eficiente do que funcionar bem. Não, espera aí. Funcionar bem, não. Isso é uma falha. Seja medíocre e assim lhe darão crédito. Aceite o que vier, já que te fazem um favor em manter você ligado, com um circuito sem panes e, se houver pane no sistema é só reconfigurar.

Manifesto Afuturista

Não consigo achar uma visão de futuro. O hoje podia encerrar com tudo isso e seria um alívio. O futuro não está em nossas mãos. Está em mãos de gente imbecil.

Diziam que o futuro a nós pertencia e olha onde fomos parar, na incerteza da existência de um.

Ser pessimista agora não é caso pra tratar com otimismo, é só ser realista. Meu futuro é incerto e o hoje podia encerrar com tudo.

Desgosto

O que sou senão um amontoado de carne apodrecendo, um pouco de sangue ralo e gordura pra manter a temperatura? Nada de especial. Nem bonita, nem inteligente, muito menos alguém que valha tempo. Não sei conviver com pessoas, não gosto que me toquem, não sou de falar muito, fico irritada com muita facilidade, tenho pânico de lugares barulhentos e com muitas pessoas. Aparentemente não me dou bem nos estudos, apesar de ter um tesão descontrolado por leitura, minha vida amorosa é um caco, um erro, uma falha e parece que nunca isso irá mudar. Minha vida social já dispensei faz tempo. Tenho poucos amigos. Tenho medo dos vinte segundos de coragem insana. Não sou de arriscar. Não tenho nada a oferecer. Desculpa. Crio expectativas, tanto pra mim mesma, quanto pros meus amigos que ainda acham que sou alguma coisa bacana. Desculpa. Sou uma fraude, isso que vocês vêem quando olham pra mim é só minha máscara, eu me conheço, não sou nada senão esse amontoado de desgostos.

Arenga

          Em apenas uma palavra, ou três, eu poderia resolver algumas coisas e me livrar de outras tantas. Também, eu poderia, por pra fora todo esse sumo e aquele gorfo acidamente informal. Um texto curto e íntimo. Uma. Palavra. Ou. Três.